quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Até que ponto os "espíritas" fazem lobby no mercado literário brasileiro?


O mercado literário brasileiro, nos últimos anos, é marcado pela mediocridade e por uma certa resistência a obras comprometidas com o conhecimento. É verdade que algumas coisas melhoraram em relação a 2015, quando o mercado viveu sua pior fase, mas mesmo assim a finalidade anestesiante ainda predomina na maioria das obras mais vendidas.

Em 2015, sabe-se, prevaleceu todo tipo de escapismo literário. Havia os habituais livros de auto-ajuda, que mais servem para ajudar os autores a faturarem mais. Além deles, romances de jovens estudantes transformados em vampiros. A reboque, vieram diários de youtubers, dotados do mais puro superficialismo, romances de jogos eletrônicos de Minecraft e até livros para colorir, risivelmente incluídos na categoria de "não-ficção".

Os livros para colorir, embora aparentemente bem intencionados - eles são anunciados como "literatura (sic) anti-estresse" - , eram uma aberração injustificável diante de um contexto em que jornais e revistas deixam de ter versões impressas e passam a ser publicados somente na Internet. Assim como esta mídia, os livros para colorir, ao menos, deveriam ser publicados só na Internet, deixando ao leitor a opção pessoal de imprimir ou não.

Muitos desses livros para colorir acabaram tirando o espaço de muitas obras comprometidas com o conhecimento, fazendo com que 2015 se tornasse um ano surreal da literatura, no qual a finalidade anestesiante de fuga do saber era o objetivo um tanto insólito e contraditório, pois os livros deveriam ser uma atividade que estimulasse a obtenção do saber e não o contrário.


Aí, percebemos fatos surreais como a ausência de obras literárias de grande envergadura, como as do escritor maranhense Humberto de Campos. A última vez que foi lançada a coleção de livros dele, foi em um volume único, em 2014, para celebrar os 80 anos de falecimento do escritor.

As obras do autor maranhense geralmente são disponíveis apenas em sebos e em arquivos para download na Internet. Admite-se que páginas como o portal de sebos Estante Virtual e o de livros digitais Domínio Público fazem sua parte, mas nem todas as obras de Humberto aparecem disponíveis nessas páginas.

Enquanto isso, as obras, reconhecidamente fake, atribuídas ao espírito Humberto de Campos, trazidas pelo "médium" Francisco Cândido Xavier, são livremente publicadas e disponíveis com a facilidade de um cafezinho num circuito de bares.

Essas obras, que qualquer pesquisa mais atenta e uma leitura mais apurada vai reconhecer disparates grosseiros em relação ao estilo original do autor maranhense, circulam livremente, e, não obstante, também têm versões gratuitas para download, na Internet, com a diferença de que são TODAS as obras "mediúnicas", em edições integrais.


Até que ponto a FEB e o "movimento espírita" podem influir no mercado literário brasileiro? Sabemos que a FEB exerce um lobby que inclui a Rede Globo de Televisão e outras instituições relacionadas ao conservadorismo ideológico que garante a blindagem do "espiritismo" brasileiro. Mas não há como entender como os "espíritas" podem influir tanto nesse lobby, que envolve também outras editoras, mesmo fora do âmbito "espírita".

As pessoas sentem falta de uma obra como O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto, que foi lançado em 1944 e se tornou uma raridade. Nem mesmo uma versão em PDF foi disponibilizada deste livro que aponta irregularidades severas em relação à suposta mediunidade do arrivista Chico Xavier, o "Aécio Neves dos espíritas".

Enquanto isso, livros como Não Será em 2012 alimentam uma série de adaptações em documentários e, depois, em livros baseados em documentários, e documentários baseados em livros baseados em documentários e assim por diante. O referido livro, de Marlene Nobre e Geraldo Lemos Neto, já inspirou o desnecessário documentário Data-Limite Segundo Chico Xavier, que por sua vez foi adaptado para um livro homônimo de Juliano Pozzati e Rebecca Casagrande.

O "movimento espírita" se compromete com a atualização, nunca devidamente assumida, da herança do Catolicismo do Brasil-colônia. Embora, em tese, o "espiritismo" brasileiro é uma adaptação local da doutrina de Allan Kardec, essa ideia é falaciosa, porque, o que vemos, em seu conteúdo, é uma forma reciclada do Catolicismo jesuíta do período colonial, com as devidas adaptações de contexto.

Uma dessas adaptações, por exemplo, é a combinação do Catolicismo medieval - vigente no Catolicismo jesuíta português, introduzido no Brasil a partir da catequização dos índios - com elementos de feitiçaria e esoterismo, como se houvesse um acordo entre os católicos medievais e uma parcela de hereges.

Dessa forma, a paranormalidade adotada no "espiritismo" brasileiro pouco tem a ver com a que é sistematizada em O Livro dos Médiuns - livro que adverte sobre muitos aspectos negativos de deturpadores, depois praticados pelas obras dos "médiuns" brasileiros Chico Xavier e Divaldo Franco, entre outros - , estando mais próxima de feiticeiros, bruxas e videntes que atuavam no submundo da sociedade medieval.

Quanto ao pretenso intelectualismo, não é de hoje que a FEB e as lideranças "espíritas" adotam uma postura ilustrada e pedante. No começo do século XX, "espíritas" posavam como se fossem membros da Academia Brasileira de Letras, como se a FEB fosse um arremedo desta instituição. 

Não é surpresa, portanto, que escritores que haviam sido membros da ABL, como Humberto de Campos e Olavo Bilac, ou eram patronos (autores já falecidos homenageados pelas cadeiras da academia na época de sua fundação, 1897), como Casimiro de Abreu e Castro Alves, tenham sido usurpados pelo "movimento espírita" na publicação de supostas obras psicográficas, cujo conteúdo apresenta graves irregularidades de estilo.

Essas obras, por essas irregularidades, se tornaram precursoras da literatura fake depois difundida na Internet. Não por acaso, pela sintonia vibratória de acordo com o nível obscurantista das redes sociais, como Facebook e WhatsApp, o "movimento espírita" encontra cadeira cativa nestes espaços virtuais.

A deturpação presente no "espiritismo" brasileiro, que o fez fugir do legado original de Kardec, apesar de toda bajulação a sua figura, permite essas situações surreais, em que obras fake são tidas como "verdadeiras" pela carteirada religiosa que significam.

O que se pode inferir sobre o lobby dos "espíritas" no mercado literário - que faz com que a FEB tenha instalações na Bienal do Livro, como nas fotos acima da edição de 2016 - é que o poderio do "movimento espírita", que derruba de vez a sua imagem de "humilde" e "despretensiosa", reflete as condições que travam o progresso do nosso país, entregue a essa forma reciclada de obscurantismo religioso que se sustenta sob um verniz "intelectual".

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Charles Manson e o moralismo dos assassinos ilustres


Tirar a vida dos outros levantando bandeiras moralistas, como um certo ódio a movimentos de vanguarda e de esquerda ou a defesa do machismo dá a certos assassinos de classes abastadas uma postura glamourizada, da qual passam a formar até estranhos fãs-clubes.

O falecimento do fracassado músico e ator Charles Manson - que havia feito testes para entrar na banda de rock Monkees e tentou se entrosar com músicos e produtores ligados aos Beach Boys e Byrds - , aos 83 anos, num hospital de Bakersfield, na Califórnia, aos 83 anos.

Ele era líder de uma seita macabra chamada Família Manson, que pretendia liquidar várias celebridades associadas à "decadência da sociedade". O projeto sanguinário começou quando Manson não era valorizado como músico aspirante pelo produtro Terry Melcher, conhecido por trabalhar com os Byrds. Melcher era filho da atriz Doris Day.

Manson então se declarou machista, racista e manifestava seu profundo ódio sobretudo ao movimento hippie e aos famosos que estiveram em evidência nos anos 1960. Ele planejava matar Melcher e Day, mas não conseguiu. E Manson usava canções dos Beatles, como "Helker Skelter", para justificar seus crimes. Por ironia, o perturbado Mark Chapman matou o ex-beatle John Lennon por motivos similares aos que inspiraram a atuação da Família Manson.

A chacina se deu em 09 de agosto de 1969. Membros da Família Manson saíam armados para disparar fogo contra vários alvos, entre eles a atriz Sharon Tate, então conhecida pelo filme O Vale das Bonecas, de 1967, e esposa do cineasta Roman Polanski. Em outra ironia, Charles Manson nasceu em 12 de novembro de 1934, exatos 35 anos antes de Guilherme de Pádua, ex-ator que havia assassinado a atriz Daniella Perez, em 28 de dezembro de 1992.

Vários membros foram presos e receberam prisão perpétua. Charles Manson, digamos, se livrou de três mortes. Uma, porque a pena de morte foi trocada pela prisão perpétua, por causa da revogação de uma lei local. Outra, é que a prisão perpétua o fez viver até 83 anos completos. A terceira, foi a sobrevivência de uma doença grave em janeiro, a mesma que, no entanto, o matou ontem.

Manson, se estivesse fora das grades há um tempo, digamos, em 1976, se valessem as normas brasileiras - que não preveem prisão perpétua, mas 30 anos de prisão, com liberdade condicional por bom comportamento depois de cumprido um sexto da pena - , teria morrido há tempos, pelo seu estilo de vida desregrado (consumia cocaína e era metido em confusões), e estima-se que, se Manson vivesse fora das grades desde então, teria morrido provavelmente entre 1994 e 2002, talvez antes.

Manson é o segundo dos principais membros da Família Manson a morrer. Em 24 de setembro de 2009, Susan Atkins, também envolvida no assassinato de Sharon Tate, faleceu aos 61 anos de câncer. A maioria dos membros da Família Manson está viva, mas alguns poucos também morreram e outros viveram no ostracismo, sem informações conhecidas de paradeiro.

A morte de Manson é a primeira grande morte, sem ocorrência de assassinato ou suicídio, amplamente divulgada de alguém que cometeu um crime. O psicopata também foi beneficiado, num contexto surreal dos EUA, por ter sido um "anti-herói", apoiado pela sociedade ultraconservadora (capaz de apoiar grupos como Klu Klux Klan), contra o movimento hippie e o psicodelismo.

Além disso, Manson chegou a ser considerado "cult" numa fase de "diarreia cultural" do grunge, quando nomes como G. G. Allin e Genitortures puxavam uma estranha onda de escatologia e morbidez comportamentais. Um evento de rock chegou a ser feito para comemorar os 60 anos de Manson, idolatrado como se fosse um psicopata fictício de filmes-B. O Guns N'Roses chegou a gravar uma música do psicopata, "Look at Your Game, Girl".

E NO BRASIL?

Há três assassinos de grande repercussão, famosos e idosos, com históricos de graves doenças. Dois feminicidas e um fazendeiro, associados a bandeiras moralistas que variam da "defesa da honra machista", da "defesa da família conjugal" e do "direito à propriedade de terra", esta uma desculpa para fazendeiros fuzilarem até missionárias que lutem contra o abuso de posses de terra de ricos latifundiários, um problema "clássico" do nosso coronelismo.

O feminicida Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, de importante família aristocrática, a Street, tem um histórico de intenso tabagismo com uso de cocaína no passado. Matou a esposa, a socialite e ex-modelo Ângela Diniz por ciúme doentio, em Búzios, no dia 30 de dezembro de 1976. Nascido no mesmo ano de Manson, Street apareceu pela última vez, aparentemente saudável, em agosto de 2006, divulgando seu livro Mea Culpa, no qual tentava explicar seu crime pelo ponto de vista pessoal.

Mas há rumores, nunca oficialmente divulgados, de que Doca Street estaria sofrendo um câncer há 30 anos. Geralmente machistas não assumem adoecer de câncer e, com um intenso histórico tabagista que preocupava amigos, conforme reportagem de Manchete em janeiro de 1977, é possível que, hoje, o câncer esteja em estágio bastante avançado, para não dizer terminal.

O assassinato de Ângela e a soltura de Doca da prisão, por conta de seu advogado Evandro Lins e Silva (que, numa exceção à sua trajetória progressista, foi defender um machista rico) em 1981, inspirou uma grande série de atos semelhantes, criando uma onda de feminicídios conjugais que até hoje acontecem com surpreendente frequência.

Ironicamente, Doca matou Ângela em Búzios, distrito de Cabo Frio e vizinha de Casimiro de Abreu, terra natal do homônimo poeta ultrarromântico, movimento associado a homens solitários com o perfil oposto ao do empresário paulista que assassinou a mulher. Quando a imprensa noticiou os 40 anos do assassinato, no final de 2016, aparentemente não foi noticiado o atual paradeiro de Doca, depois das entrevistas que ele deu em 2006.

Outro feminicida, Antônio Marcos de Pimenta Neves, hoje com 80 anos, era chefe de redação de O Estado de São Paulo quando assassinou, por ciúme doentio, a colega Sandra Gomide, então com 33 anos em 20 de agosto de 2000. Pimenta Neves tentou suicídio ingerindo uma overdose acidental de remédios.

Segundo o portal IG, Pimenta Neves, nos últimos anos, ficou parcialmente cego por sintomas de diabetes e sofre de câncer na próstata. Há rumores de que ele também estaria sofrendo um processo de falência múltipla dos órgãos por efeito da overdose que havia cometido em 2000.

O fazendeiro Darly Alves é conhecido por ter sido o mandante do assassinato do líder ambientalista Chico Mendes, em 15 de dezembro de 1988, executado por seu filho Darcy Alves. Ambos estão entregues à impunidade. Darly é conhecido pelas constantes internações por causa de problemas sérios de úlcera.

As mortes de homicidas dessa espécie assustam a sociedade conservadora, por certas razões. Uma, pelo fato deles serem vistos como "justiceiros" moralistas diante de certas transformações sociais que as elites consideram incômodas, como a emancipação da mulher, a causa LGBT e a ascensão dos movimentos de trabalhadores rurais. Outro, é pelo medo de que, mortos, eles fossem assombrar a sociedade em virtude da interrupção da vida carnal.

Há até mesmo lendas de feminicidas que, ao morrerem, ficam "presos" às casas onde cometeram crimes. São apenas lendas. Na verdade, segundo a natureza do espírito desencarnado, assassinos, quando morrem, tendem a reencarnar o mais rápido possível, na ânsia de afastar a marca sombria de suas encarnações anteriores.

Diante das pressões sociais em que passam a viver, homicidas em geral tendem a viver de 60% a 80% a expectativa de vida de pessoas comuns. Sendo o homicídio o egoísmo humano levado às últimas consequências, o próprio executor sofre as pressões emocionais e sociais que acabam contribuindo, direta ou indiretamente, para o agravamento de doenças e ocorrência de acidentes trágicos.

Como diz a música "Hey Joe" (cuja original, interpretada por Jimi Hendrix Experience, remete a um recado a um feminicida), na versão do grupo brasileiro O Rappa: "também morre quem atira".

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A "fascinação obsessiva" protege os "médiuns" que deturpam o Espiritismo


Culto à personalidade, defesa de valores moralistas conservadores, apoio a políticos retrógrados, prática de Assistencialismo (caridade que pouco ajuda e serve mais de propaganda ao "benfeitor"), sem falar de ideias difundidas ao arrepio do legado original de Allan Kardec.

Esses defeitos estão presentes nos "médiuns espíritas" e as pessoas não percebem. E, quando são informadas, ainda coçam a cabeça e procuram dizer "Isso não é possível". Fazem ginástica mental para alegar que isso não faz sentido e que os "médiuns", embora "catolicizem demais" o Espiritismo, cumprem, aos olhos de muitos, a prometida "rigorosa fidelidade" à Codificação.

Não, não cumprem. Comparem o conteúdo dos livros de Allan Kardec com os livros que são publicados por Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco. Façam uma leitura cuidadosa, minuciosa, desprovido de paixões religiosas. Parem de sonhar com passarinhos voando sobre flores no mundo espiritual porque isso nem de longe foi cientificamente tido sequer como plausível.

Sem essas paixões religiosas, se verá que o conteúdo que os "médiuns" brasileiros difundem contraria, de forma bastante vergonhosa, o legado kardeciano. Não adianta Divaldo expor em entrevistas na TV a teoria correta de Kardec se ele lança obras e palestras contrárias.

Ensinar bem num momento e ensinar errado em tantos outros não é ser fiel ao legado espírita original, algo comparado a um homem que faz um discurso em favor do feminismo e, depois, quando volta para casa, vai bater na mulher.

O "espiritismo" brasileiro é fruto de uma série de estragos irreparáveis. Foi a religião que mais se corrompeu pelas suas más escolhas. A liberdade e a tolerância religiosa não podem ignorar esses graves aspectos, porque o direito a fé não permite jamais que as pessoas façam o que quiserem e se livrem das consequências de seus atos.

Hoje se vive a realidade absurda dos "médiuns" serem blindados com tanta obstinação pela sociedade que já superam até mesmo os políticos do PSDB, que, pelo menos, sofrem algum tipo de repúdio social. Ser "médium" no Brasil já é uma aberração, vivendo o culto à personalidade, se promovendo com Assistencialismo e vivendo do aparato das lindas imagens e belas palavras.

"MÉDIUNS" APRONTAM E SAEM ILESOS EM TUDO

O fato de um "médium" como Divaldo Franco sair "invisível" na grande imprensa ou mesmo na imprensa de esquerda, mesmo quando foi ele que ofereceu o evento Você e a Paz para o lançamento oficial da "farinata", a "ração humana" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr., revela processos obsessivos que fazem com que a imagem adocicada dos "médiuns" se preserve a qualquer preço.

Chico Xavier foi o que mais personificou isso. De um pastichador literário - trabalho que não fazia sozinho, mas com a ajuda de Antônio Wantuil de Freitas e uma equipe editorial da FEB - a um quase Deus, o "médium" mineiro trilhou um caminho de muito oportunismo, a ponto dele, comprovado deturpador do Espiritismo, ser considerado "aproveitável" por muitos num esforço de recuperação das bases literárias. "Aproveitável" não se sabe por quê, mas "porque sim".

Ele usurpou a memória dos literatos falecidos. Não gostou de uma crítica de Humberto de Campos e esperou ele morrer para se apropriar dele e "mudar seu estilo" nas "psicografias". Foi julgado e impune por causa da seletividade da Justiça, e usou do processo de fascinação obsessiva para dominar Humberto de Campos Filho e evitar que ele continuasse os processos judiciais contra o "médium".

Como um Aécio Neves da religião, Chico Xavier aprontava e saía ileso. Era até ajudado, no caso da FEB que "tirou do caminho" o sobrinho que iria denunciar suas irregularidades "mediúnicas", Amauri Xavier. Passou por cima também do caso Otília Diogo, pois, apesar das provas de cumplicidade - fotos confirmam que Chico acompanhava a produção da farsa da suposta Irmã Josefa - , ele se saiu como "vítima".

Para complicar ainda mais, Chico Xavier passou a ser blindado pela Rede Globo de Televisão a partir dos anos 1970 e, mesmo assim, conseguia seduzir setores das esquerdas mesmo defendendo a ditadura militar e reprovando a crítica e o questionamento, pregando o "silêncio" como "voz da sabedoria" (falácia que é eufemismo de censura). Passou a ter a reputação, não se sabe por que motivo, de "progressista", suposta qualidade dada assim, de graça.

A coisa se tornou de tal forma que basta ser "médium espírita" para gozar de benefícios que se comparam a enredos como Prenda-me Se For Capaz e VIPs, baseados respectivamente nas trajetórias dos espertalhões Frank Abagnale Jr. e Marcelo Nascimento.

A aberração é tão grande que ser "médium espírita" hoje virou a fórmula para qualquer um fazer o que quiser e não ser pego de jeito algum. Pode-se até distribuir cestas básicas em campanha eleitoral que ninguém criminaliza, mesmo sob a base da lei.

Basta adquirir um casarão e jogar meia-dúzia de pobres e doentes, escrever livros atribuindo a um suposto morto com mensagens igrejeiras de "fé e esperança" e, pronto. Se Abagnale Jr. e Nascimento tivessem feito isso, estariam à beira da canonização.

O QUE É MESMO FASCINAÇÃO OBSESSIVA?

O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, fala de tipos de obsessão, nos quais se destacam dois dos mais perigosos, a "fascinação obsessiva" e a "subjugação". Geralmente a "fascinação obsessiva" domina os seguidores e adeptos, enquanto a "subjugação" domina aqueles com virtuais condições de investigar as irregularidades do "movimento espírita", como jornalistas, juristas e acadêmicos.

Muitos entendem a obsessão como um processo escancarado no qual um espírito claramente leviano e perverso, com um discurso claramente sombrio e malicioso, domina as pessoas na base da coerção e da ameaça. Ah, como as pessoas não percebem os voos altos da astúcia humana.

No "espiritismo", o que vemos é que a dominação se dá com o máximo de sutileza possível. Quase ninguém percebe, e mesmo os céticos se deixam levar pelo discurso de "fascinação obsessiva" que os "médiuns espíritas", movidos pelo culto à personalidade, difundem em seu favor.

O discurso é tão sofisticado que chega a se tornar uma pegadinha infalível que engana até mesmo pessoas com certo tipo de consciência crítica. Fora da religião, o "funk", um subproduto do comercialismo da mídia dominante, também se vale de apelos emocionais semelhantes, que pegaram as esquerdas desprevenidas. Para muitos oportunistas, basta mostrar fotos de crianças pobres sorridentes para conquistar a tão sonhada unanimidade social.

No caso dos "médiuns" dominando os seguidores, há uma analogia de caraterísticas da "fascinação obsessiva" de espíritos dominando médiuns na obra de Allan Kardec, pois o processo de dominação é exatamente o mesmo. Conforme o capítulo 23, item 239, de O Livro dos Médiuns:

239. A fascinação tem conseqüências muito mais graves. Trata-se de uma ilusão criada diretamente pelo Espírito no pensamento do médium e que paralisa de certa maneira a sua capacidade de julgar as comunicações. O médium fascinado não se considera enganado. O Espírito consegue inspirar-lhe uma confiança cega, impedindo-o de ver a mistificação e de compreender o absurdo do que escreve, mesmo quando este salta aos olhos de todos. A ilusão pode chegar a ponto de levá-lo a considerar sublime a linguagem mais ridícula. Enganam-se os que pensam que esse tipo de obsessão só pode atingir as pessoas simples, ignorantes e desprovidas de senso. Os homens mais atilados, mais instruídos e inteligentes noutro sentido, não estão mais livres dessa ilusão, o que prova tratar-se de uma aberração produzida por uma causa estranha, cuja influência os subjuga.

Dissemos que as conseqüências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças a essa ilusão que lhe é conseqüente o Espírito dirige a sua vítima como se faz a um cego, podendo levá-lo a aceitar as doutrinas mais absurdas e as teorias mais falsas como sendo as únicas expressões da verdade. Além disso, pode arrastá-lo a ações ridículas, comprometedoras e até mesmo bastante perigosas.(1)

Compreende-se facilmente toda a diferença entre obsessão simples e a fascinação. Compreende-se também que os Espíritos provocadores de ambas devem ser diferentes quanto ao caráter. Na primeira, o Espírito que se apega ao médium é apenas um importuno pela sua insistência, do qual ele procura livrar-se. Na segunda, é muito diferente, pois para chegar a tais fins o Espírito deve ser esperto, ardiloso e profundamente hipócrita. Porque ele só pode enganar e se impor usando máscara e uma falsa aparência de virtude.

As grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança. Mas através de tudo isso deixa passar os sinais de sua inferioridade, que só o fascinado não percebe; e por isso mesmo ele teme, mais do que tudo, as pessoas que vêem as coisas com clareza. Sua tática é quase sempre a de inspirar ao seu intérprete afastamento de quem quer que possa abrir-lhe os olhos. Evitando, por esse meio, qualquer contradição, está certo de ter sempre razão.

No contexto brasileiro, a dominação que Allan Kardec se refere aos espíritos sobre os médiuns se equipara, com exatidão, à de "médiuns" - que se afastaram da função intermediária e quase anônima dos médiuns espíritas originais - sobre seus seguidores. Os aspectos denunciados por Kardec são exatamente os mesmos.

Deve-se prestar atenção ao último parágrafo do item 239, no qual "grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança". Até isso Kardec já preveniu as pessoas deste perigo. Mas, infelizmente, mesmo os críticos da deturpação do Espiritismo estão mais preocupados em proteger os deturpadores, movidos por esse traiçoeiro aparato de "amor e caridade".

Há até mesmo o uso de desculpas como "intolerância religiosa", apelos como o vitimismo - nos quais os deturpadores fingem "aceitar os ataques em silêncio", dizendo-se "pacientes e humildes diante da ira da sociedade contra o trabalho do bem" e "confiantes a Deus, seu único apoio no momento em que as pedras se voltam a eles". Criam todo um teatro do coitadismo, como meio de forçar a comoção pública com sua pose de pretensos "derrotados" que oculta seu poder dominador e privilegiado.

Os "espíritas" apelam até mesmo para a estratégia mais perigosa, o "bombardeio de amor", no qual se forja um clima de emotividade intensa e falsa intimidade hospitaleira. Isso mostra o quanto a "fascinação obsessiva" protege os "médiuns" e atrai a confiança cega de seus seguidores, e a "subjugação" a subordinação de quem poderia questionar e investigar mas se submete ao domínio de forma convicta.

Dessa forma, cria-se um impasse no qual os alertas de Allan Kardec forçam o "espírita" brasileiro a optar pela aceitação desses alertas ou a rejeição a eles pela submissão aos "médiuns". A cada dia as circunstâncias forçam os brasileiros a terem que escolher entre Kardec e os deturpadores. Não se pode ficar com os dois. Não há fraternidade entre o bom senso e o contrassenso. Ou é uma coisa ou outra. É hora de cair das nuvens.

domingo, 19 de novembro de 2017

Por que a "geração 74" tomou o poder no Brasil?


O que faz surgirem estranhezas como um velho reacionarismo contaminando a juventude, a partir de grupos como o Movimento Brasil Livre? O medo de ver velhos feminicidas morrerem, mesmo na velhice plena? Ou o medo de ser cancelada uma simples padronização visual nos ônibus, voltando cada empresa a exibir sua identidade visual? Ou a leviandade de cancelar as conquistas trabalhistas históricas, criando uma "reforma" que só beneficia os patrões?

São loucuras que ainda são acrescidas, nessa novela surreal enlouquecida que se tornou o Brasil, com um "médium espírita" oferecendo seu evento para o lançamento oficial de um composto alimentar duvidoso condenado pelos movimentos sociais e pelas entidades sérias de saúde pública, e depois saindo de fininho beneficiado pelo "silêncio" da imprensa em geral.

E que situação enlouquecida é essa em que vive o Brasil? Explica-se isso pelo fato de que, desde 2016, a "geração 74", de privilegiados sociais do decorrer da década de 1970 - 1974 é o ano em que se combinou a herança do "milagre brasileiro" do general Emílio Médici com a "democracia com limites" proposta pelo sucessor Ernesto Geisel - , retomou o poder e se impõe como "dona" do presente e do futuro do nosso país.

A situação se compara à da "geração Nixon" dos EUA que se ascenderam durante a vitória eleitoral de Richard Nixon, em 1969, que em parte elegeu Donald Trump, se reúne em grupos reacionários que vão do Tea Party à Klu Klux Klan, apoia a truculência policial contra negros e tem muito medo de ver o psicopata Charles Manson (que prestou serviço à sociedade reacionária ao promover uma chacina que desmoralizou os hippies em 1969), já em idade avançada, falecer de repente.

Recentemente, Manson foi internado em estado grave, pela segunda vez este ano. Aparentemente, ele continua vivo até o momento de edição de nosso texto, ainda que esteja já com 83 anos de idade. Por sorte, a prisão lhe prolongou a vida, porque, se tivesse saído da prisão, na época da sentença perpétua dada em 1971, Manson, pelo seu estilo de vida, já teria morrido entre 1994 e 1997, talvez até antes.

O medo de ver assassinos ricos morrerem antes dos 90 anos é uma tônica dessa estranha sociedade nos EUA e Brasil. Se, por exemplo, um feminicida morre de infarto aos 55 anos, ninguém noticia - a não ser que ele sofra o mal no meio da rua, diante de tanta gente, porque aí não dá para esconder (ou alguém teria coragem disso?) - e ele só será declarado oficialmente morto após completar 93 anos de nascimento.

O que será que move essa sociedade que parece ser "invulnerável" e até "imortal"? A "geração 74" é a geração dos Illuminati contemporâneos? Diz a lenda que os Illuminati são um conjunto de diversos grupos sociais, reunidos sob critérios que vão do machismo ao jornalismo conservador, passando pela religião aos grupos paramilitares, sob o compromisso de estabelecer um modelo "ideal" de sociedade.

A "geração 74" sempre quis destruir ou enfraquecer o Brasil dos anos 1960 (1960-1964) e suas tentativas de recuperar e ampliar os progressos sociais nos anos 1980 e 2000. É identificada com valores medievais, sendo alguns membros mais radicais inclinados ao fascismo, e só admitem a modernização em aspectos formais, como o vestuário, a tecnologia, o vocabulário etc.

É uma geração que mistura o autoritarismo da Oceânia, a nação tirânica do livro 1984 de George Orwell com o autoritarismo "benevolente" do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, e que deseja uma democracia controlada no Brasil, movida pelo trabalho precarizado, pela caridade paliativa que mais expõe seus executores do que traz benefícios aos necessitados, e por uma "liberdade cultural" limitada que não permite questionamentos aprofundados.

Ela tomou o poder porque mantém sob controle os processos financeiros, hospitalares, técnicos, tecnológicos, publicitários, coercitivos, jurídicos e midiáticos, ou de outra natureza, que os fazem sobreviver a incidentes incômodos ou ameaçadores. São os privilegiados da sorte, cujos privilégios variam do porte de arma ao prestígio religioso, do poder financeiro à visibilidade pública, do caráter tecnocrático ao domínio jurídico.

E O "ESPIRITISMO"

Cada vez mais se comprova o apoio do "movimento espírita" aos movimentos conservadores dos mais diversos. De um longo caminho que indicou o apoio de "espíritas" (a partir da FEB e com o respaldo de Francisco Cândido Xavier) ao golpe de 1964, manifesto pela participação da religião na Marcha da Família Unida com Deus pela Democracia (fato registrado pelo historiador Jorge Ferreira) ao apoio ao governo Michel Temer, vai um longo caminho.

Esse caminho inclui tanto o próprio Chico Xavier apoiando, com indisfarçável prazer, a ditadura militar em sua pior fase (a título de comparação, o maior apoiador do golpe militar, o jornalista Carlos Lacerda, estava na oposição), sepultando a imagem de "progressista" associada de forma equivocada ao "médium", quanto o entusiasmado encontro do "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, com o presidente Michel Temer.

A atitude explícita de Divaldo Franco em usar o Você e a Paz, na sua edição paulista, para o lançamento oficial da "farinata" ou "ração humana" do decadente João Dória Jr., poderia até ter rendido um escândalo de gigantescas proporções dentro do "movimento espírita" não fosse o silêncio absoluto da imprensa. Nem a mídia de esquerda, normalmente mais informada que a hegemônica e de centro-direita, levou em conta esse fato e, dos religiosos, só criticou o católico dom Odilo Scherer.

Isso porque Divaldo entrou numa grande enrascada, como o rei de um jogo de xadrez que foi pego num xeque-mate. Divaldo, tido como "humanista", apoiou um complexo alimentar condenado por sanitaristas e ativistas sociais sérios, e o "médium" não sai inocente de sua grave decisão porque ambos os argumentos o deixam em grande desvantagem.

Se Divaldo agiu sem saber e desconheceu a gravidade do caso da "farinata" (feito com restos de comida e potencialmente nocivo à saúde humana), isso derrubou sua fama de "sábio", de suposto vidente de fatos futuros e de orador ilustre capaz de responder a todo tipo de questão da vida. Imagine um "médium" tido como capaz de ter respostas para tudo (o que rendeu os dois volumes de Divaldo Responde) não ter respostas para uma "comida estragada" disfarçada de complexo nutricional.

Se Divaldo agiu sabendo, isso derruba a sua fama de "humanista", porque apoiou um projeto alimentar que previamente - em relação ao dia do evento Você e a Paz - era condenado por nutricionistas, especialistas em saúde pública em geral e pelos movimentos sociais, ao consentir que João Dória Jr. lançasse a tal "farinata". Também derrubou a imagem de Divaldo como "caridoso", já que há denúncias de que o alimento de Dória teria envenenado internos em Jarinu.

Isso não é boato nem fofoca. Foi dado por uma imprensa conservadora, o jornal O Estado de São Paulo, que divulgou uma denúncia de que em uma instalação da Missão Belém, parceira do prefeito de São Paulo e da empresa Plataforma Sinergia na criação da "farinata", ocorreram várias mortes de internos, vários deles ex-moradores de rua, por efeito de desnutrição, desidratação, vômito e diarreia por suposta dieta a base de "farinata". Teriam sido usados como "cobaias" do produto.

As pessoas não perceberam isso, que demonstra o entrosamento dos "espíritas" com o atual momento. Serão eles também integrantes da plutocracia, ou dos "Illuminati" da "geração 1974"? A imprensa deixou perder uma boa oportunidade de analisar isso, achando que o apoio do "espiritismo" brasileiro ao governo Temer e seus associados "nada tem a ver", apenas sendo uma "formalidade de um espírito movido pelo perdão".

Não. Isso significa que os "espíritas" estão, sim, afinados com o momento de retomada conservadora. A complacência dos brasileiros, mesmo muitos progressistas ou de esquerda, esquece que Chico Xavier sempre pregou o silêncio em detrimento do questionamento, sendo um anti-Kardec convicto, e, o que é pior, um "médium" ultraconservador e até reacionário que fez "escola" para o verborrágico Divaldo Franco (um professor aos moldes da Escola Sem Partido) e o latifundiário João de Deus.

Isso comprova o quanto o "espiritismo" brasileiro rompeu com Allan Kardec, apesar de tantas e tantas e tantas bajulações ao professor francês, preferindo seguir com o igrejismo roustanguista que tanto empolgou os "espíritas" brasileiros, e cada vez mais voltado para ser uma atualização do antigo Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia puxando o projeto neo-medieval do "Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", que recriará sob novo contexto o Império Romano e o Catolicismo medieval.

sábado, 18 de novembro de 2017

João Dória Jr. suspende farinata. Mas o estrago já foi feito


É possível que as pessoas se empenhem em esquecer a terrível "farinata" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr., e busquem reabilitar o deturpador Divaldo Franco e seu evento Você e a Paz, deixando tudo para lá, inclusive o silêncio da mídia, diante do envolvimento de um "espírita" no apoio ao duvidoso projeto.

Esta semana o prefeito da capital paulista anunciou o cancelamento da "farinata" - que foi alvo de inquérito até do Ministério Público de São Paulo - e a substituição do alimento pelo programa "Alimentação Saudável", no qual priorizará no investimento em alimentos produzidos por pequenas propriedades de agricultura familiar para serem fornecidos nas escolas públicas e instituições religiosas.

Certo. O programa é copiado do que o antecessor Fernando Haddad, do PT (partido ideologicamente oposto do de Doria, PSDB), já fazia com maior amplitude, mas menos danoso. Pode ser um oportunismo político, mas é uma medida mais benéfica para a população. Mas isso não quer dizer que o caso "farinata" não produziu seus danos.

O estrago já foi feito. João Dória Jr., o arcebispo dom Odilo Scherer e a executiva da Plataforma Sinergia, Rosana Perrotta, são seus responsáveis oficiais do engodo, e respondem diretamente pelos atos de concepção do produto, feito ao arrepio das normas de nutrição e até de higiene e saúde pública.

Mas Divaldo Franco não pode escapar pela porta dos fundos, beneficiado pelo silêncio da imprensa, no qual nenhum jornalista teve o cuidado de refletir por que o nome de Divaldo e o do Você e a Paz apareciam na camiseta do prefeito de São Paulo. Aquilo não era coisa tipo um adolescente vestindo uma camiseta do grupo Nirvana, mas um vínculo de imagem, um esforço de associação do "médium" e seu evento à "farinata".

Como anfitrião do evento que lançou oficialmente a "farinata", Divaldo também tem que arcar com as consequências. Nem a firmeza caraterística de Allan Kardec o "médium" baiano seguiu, preferindo deixar o produto ser lançado sem qualquer apresentação de exames técnicos e documentos comprovando sua qualidade.

Divaldo Franco entrou em contradições até com a sua reputação de "sábio" e "humanista", porque apoiou um produto que os movimentos sociais definiram como "ofensa à dignidade humana". Como suposto "cientista", Divaldo não sabe que o Guia Alimentar para a População Brasileira desaconselha que um regime de alimentação saudável priorizasse um composto processado, em forma de biscoito ou granulado, recomendando alimentos em estado e qualidade próximos aos oferecidos pela Natureza.

Divaldo passou a situação como "desinformado" ou "complacente" com o produto, o que derrubou de vez a reputação do "médium", que meses antes havia feito um juízo de valor bastante severo contra refugiados do Oriente Médio, supondo que eram "reencarnação de antigos colonizadores" e alegando que eles retornavam à Europa "para retomar os tesouros do Velho Mundo".

Tal juízo de valor pode indicar, até mesmo, intolerância religiosa, não bastassem os potenciais danos morais que podem ser causados a indivíduos ou famílias que tomarem conhecimento dessa declaração do "maior orador espírita".

Certamente, a "farinata" passa mas a indigestão causada pelo episódio causaram um arranhão em Dória, Scherer, Perrotta e Franco, pelas posturas que tomaram e pela inicial insistência com que tentaram empurrar um produto condenado por entidades de saúde e movimentos sociais.

No caso de Divaldo, sua imagem de "ativista" foi derrubada quando foi apoiar um projeto alimentar condenado pelos verdadeiros ativistas sociais. E mais, o episódio mostra o quanto se agravou a crise no "espiritismo" brasileiro, sempre perdido em suas más escolhas.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Faz sentido apenas expor a teoria original de Allan Kardec?

NEM A LEITURA DAS TRADUÇÕES DE JOSÉ HERCULANO PIRES FARIA OS DETURPADORES DO ESPIRITISMO ESTAREM EM DIA COM ALLAN KARDEC.

O "espiritismo" brasileiro acumulou muitos problemas que foram escondidos debaixo do tapete. A opção igrejeira do roustanguismo fez com que uma série de más decisões fossem feitas, e, diante de muitos impasses, resultar em posteriores dissimulações.

Hoje o "espiritismo", na prática, se afastou de Allan Kardec. O professor de Lyon foi reduzido a um objeto de bajulação e sua apreciação se dá por conta de traduções catolicizadas das editoras FEB e IDE, o que não corresponde ao pensamento original da Codificação.

A hipocrisia acabou reinando entre os "espíritas" que cometem traições gravíssimas a Allan Kardec, mas juram de pés juntos que são "rigorosamente fiéis" a ele, algo que só pode ser definido como leviandade.

Não estamos dizendo isso por intolerância religiosa, mas por intolerância à farsa, à mentira e à dissimulação. A liberdade religiosa não pode ser usada como desculpa para que se cometam traições e deslizes e depois se esconda a sujeira debaixo do tapete.

Os "espíritas" fazem o que querem, mas querem sair pela porta dos fundos. São beneficiados pelo mito de que só podem ser responsáveis por seus atos quando eles são positivos e acertados. Mas, quando se tratam de erros e atitudes danosas, eles fogem de qualquer responsabilização mesmo quando dizem "assumir seus erros". Só que "assumem" para não serem punidos, e isso mais parece uma demonstração de orgulho: "Quem nunca errou na vida? Todos erram, nós somos que mais erramos na vida!".

Não há autocrítica e os "espíritas" se corrompem em vaidades imensas. Reduzem o suado trabalho de Allan Kardec a um engodo, desmoralizando o trabalho do pedagogo, que investiu nas pesquisas sem apoio alheio, senão o de sua esposa, e tirando o dinheiro do próprio bolso, diferente dos festejados "médiuns", que vão fazer turismo sob patrocínio de empresas ou desviando o dinheiro da caridade, só para falar coisas inócuas para os ricos e receberem medalhas dos poderosos.

O "espiritismo" chega a ser mais vergonhoso do que as seitas "neopentecostais". Elas, de fato, são retrógradas, obscurantistas e muitos de seus pastores, em suas pregações, parecem ensandecidos, mas o neopentecostalismo pelo menos não comete desonestidade doutrinária. A desonestidade pode ser pelo âmbito financeiro, cometendo estelionato religioso arrancando dinheiro dos fiéis. Mas eles, pelo menos, assumem que seus valores são retrógrados e voltados ao Velho Testamento.

Os "espíritas" seguem muitas contradições. A principal delas é alternar seu igrejismo entusiasmado, sua "vaticanização" convicta na prática mas nunca assumida no discurso, com eventuais exposições, aparentemente corretas, da teoria espírita original.

A interpretação correta dos textos de Allan Kardec, no entanto, não é garantia que os "espíritas" estejam realmente sendo fiéis aos postulados espíritas originais. Em muitos casos, há até mesmo uma alternância contraditória, em que num momento os "espíritas" expõem as ideias kardecianas autênticas (ainda que com base em traduções igrejeiras), em outro "soltam a franga" e expõem o mais derramado igrejismo.

Geralmente os "espíritas" só querem soar "corretos" em momentos mais discretos, mas dos quais são voltados a um público mais criterioso. São entrevistas em programas de TV - em boa parte, por assinatura - , canais da Internet, periódicos diversos e bastidores de seminários.

Mas quando se tratam de congressos "espíritas", lançamentos de livros e outros eventos nos quais existe um acolhimento mais caloroso das pessoas, eles ostentam o mais escancarado igrejismo, marcado por uma visão, herdada do Catolicismo medieval, sobre temas como religiosidade, fraternidade e caridade. Aí se mostram os "Constantinos" que em outros momentos fingem rejeitar a "vaticanização do Espiritismo".

Essa atitude contraditória revelou o fracasso da promessa que os deturpadores do Espiritismo fizeram, há mais de 40 anos, que é a de "aprender melhor o legado deixado por Kardec". Uns, exageradamente, falavam até em "viver Kardec", mas eram os primeiros a manter a deturpação em dia. O fracasso se deu porque a simples exposição das ideias kardecianas não impediu que seus expositores, em outras situações, manifestassem sua paixão pela deturpação igrejista.

São contradições assim que mancham o "espiritismo" brasileiro, que agora vive a sua mais aguda crise, agravada por circunstâncias recentes, como o apoio de Divaldo Franco à "farinata" de João Dória Jr.. E mostra o quanto a promessa de "aprender Kardec" não foi mais do que uma conversa para boi dormir.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

É mais fácil dizer que Papai Noel não existe do que apontar erros em "médiuns espíritas"


A sociedade anda apavorada ao saber que Divaldo Franco esteve associado à "farinata" de João Dória Jr., pelo fato de que o terrível alimento - que derrubou a já péssima reputação do prefeito de São Paulo - foi oficialmente lançado pelo evento Você e a Paz, que, apesar do patrocínio da Arquidiocese de São Paulo, é organizado por iniciativa do próprio "médium" baiano.

Sim, "médiuns espíritas" são dotados da mais absoluta blindagem. E isso deve porque eles são a suposta personificação de qualidades humanas fantásticas observadas em contos de fadas. Os estragos que a "fascinação obsessiva", através dos apelos emocionais do "bombardeio de amor" (um tipo de falácia marcado pelo excesso de emotividade e de afeto tendencioso), causou nos brasileiros foram devastadores.

Sabe-se que a "fascinação obsessiva" foi claramente reprovada por Allan Kardec, que a definiu como um tipo perigoso de obsessão, não tanto quanto a "subjugação". É a "fascinação obsessiva" que garante a adoração e a blindagem dos "médiuns" brasileiros por toda a solidariedade, a não ser da parte de juristas, jornalistas e acadêmicos, estes movidos pelo tipo mais perigoso, a "subjugação".

Isso porque a "fascinação obsessiva" é um tipo de submissão tomada de encanto, mas que não chega a interferir na consciência humana, dotada de aparente autonomia de ação. Já a "subjugação" é pior, porque é uma subordinação completa, porque nem mesmo a lógica, o bom senso e a coerência conseguem deter. A "subjugação" é uma "fascinação" em sua forma radical e ainda mais submissa ao espírito dominador.

"Fascinados" pela imagem "dócil" dos "médiuns", jornalistas, juristas e acadêmicos se recusam a investigá-los de maneira objetiva, criando simulacros de "investigação" que só servem para forjar alguma "polêmica" e, depois, deixar os "médiuns" intatos, mesmo quando se comprova seus erros e suas irregularidades.

Só para citar um exemplo, o caso de Humberto de Campos, cuja propriedade intelectual foi levianamente usurpada e empastelada pelo "médium" Francisco Cândido Xavier - que, em seu tempo, foi uma espécie de Aécio Neves da religião, com ranços "filantrópicos" de Luciano Huck - , foi um caso aberrante de impunidade, cujo ridículo da situação poderia ter sido apenas um capítulo do FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, de Sérgio Porto / Stanislaw Ponte Preta.

Mas não. Enquanto a obra original de Humberto, que havia sido um escritor bem popular no seu tempo, foi deixada de lado, oficialmente fora do mercado literário, as obras fake trazidas por Chico Xavier, que claramente destoam do estilo original do autor maranhense, continuam sendo lançadas e até divulgadas em feiras literárias, por causa de mensagens supostamente espiritualistas de claro conteúdo igrejeiro, de profundo agrado a uma parcela conservadora e moralista da sociedade.

Isso é uma leviandade e mostra o quanto os "médiuns espíritas", que se julgam até "acima de Kardec", são tomados da mais absoluta blindagem e não podem ser questionados, porque muitas pessoas reagem chorando e apelando para o discurso vitimista de "perseguição aos homens de bem". A imagem trazida pela "fascinação obsessiva", com um mundo de cor e fantasia, fala muito alto. Em blindagem, os "médiuns" superaram até mesmo os políticos do PSDB, famosos por tal situação.

Fica difícil dizer aos adultos que os "médiuns espíritas" são traidores da Doutrina Espírita. Imagine então identificar em Chico Xavier e Divaldo Franco como "inimigos internos do Espiritismo"? Isso é fato, porque os dois apresentam caraterísticas que haviam sido alertadas como negativas em O Livro dos Médiuns. Mas as pessoas vão correr para seus quartos e chorar copiosamente, diante de tão "infeliz acusação".

Isso é bem pior do que dizer a uma criança que Papai Noel não existe. A essas alturas, a criançada, que usa a Internet e tende a ser melhor informada das coisas - não por conta da poluição mental das redes sociais, mas por páginas informativas que as crianças, divergentes dos vícios dos jovens adultos, poderão consultar - , já deve perceber que o "bom velhinho" geralmente é um personagem interpretado por algum ator ou outro profissional durante os eventos natalinos.

Já dizer que os "médiuns espíritas" são charlatães, deturpadores do Espiritismo, criam obras "mediúnicas" fake - imagine Auta de Souza "perdendo" seu estilo feminino para "voltar" com o mesmo estilo de Xavier? - , praticam a "caridade" fajuta do Assistencialismo, são "vaticanizadores" da Doutrina Espírita etc, isso faz os adultos chorarem aos soluços ou espumar de raiva rancorosa.

Isso é muito mau. E mostra o grande absurdo que se tornou o que parece oficialmente a versão brasileira do Espiritismo. Uma doutrina que se afastou completamente do legado e até da conduta de Allan Kardec, um sujeito tão criterioso, observador e exigente que nunca teria aceito alguém divulgar a "farinata" usando o nome respeitável de um pedagogo francês.

Mas, de maneira bastante explícita, Divaldo Franco deixou que João Dória Jr. lançasse um alimento que especialistas e ativistas sérios definem como "ofensa à dignidade humana", usando o nome do "médium" e de seu evento. Divaldo deixou a máscara cair para sempre, revelando nunca ter sido discípulo de Kardec e, pior, provando nem sequer ter o espírito de firmeza e prevenção que havia marcado a pessoa do pedagogo de Lyon.
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