sábado, 16 de dezembro de 2017

O "espiritismo" e o perigoso apelo do "bombardeio de amor"


Se você critica a deturpação igrejeira que rebaixa a Doutrina Espírita a um sub-Catolicismo e, em dado momento, não se aprofunda nas críticas e sucumbe à adoração ou, ao menos, à "respeitosa simpatia" aos "médiuns" deturpadores, cuidado: você pode ter se deixado levar pelo "bombardeio de amor".

"Que ótimo! Amor demais sempre é bom! Quem dera uma explosão de amor a tomar a Terra, fazendo com que a paz se reine entre os povos", diria algum desavisado da ocasião. Mas o "bombardeio de amor", que no Brasil é visto quase sempre como um fenômeno positivo, é reconhecido, no mundo desenvolvido, como um tipo muito perigoso de falácia e de dominação das pessoas.

"Bombardeio de amor,é dessa guerra que o mundo precisa!", diz uma página no Facebook, reduto de pessoas com visão simplória e distorcida da realidade. Muita gente não sabe a estranheza que é o processo de dominação através de um simulacro de afeição intensa e na ênfase de apelos emocionais muito fortes, feitos para arrancar o máximo de comoção das pessoas.

O "médium" Francisco Cândido Xavier, para decepção de muita gente, se revelou, além de realizador de pastiches literários - não sem a colaboração de terceiros, diga-se de passagem - , foi um artífice de vários processos de manipulação da mente: tinha um olhar hipnótico, quando jovem, e mexia com diversos processos que parecem herdados dos espetáculos circenses ou de práticas ocultistas.

Cita-se, entre outros, as técnicas ilusionistas de suposta materialização, como se viu no caso Otília Diogo - no qual Chico Xavier devia ter sido também responsabilizado, pois fotos de Nedyr Mendes da Rocha, depois divulgadas, comprovam que o "médium" acompanhou com gosto todos os preparativos da farsa - , e a "leitura fria", que é a captura de informações trazidas pela forma com que as pessoas dão seus depoimentos e fornecem as informações correspondentes.

Toda essa habilidade de manipular e controlar as mentes das pessoas transformou um deturpador do Espiritismo em um semi-deus, jogando também com as palavras, veiculando ideias contraditórias com suas supostas frases de sabedoria e lançando mão de todo tipo de apelo emocional para dominar as pessoas e levá-las às lágrimas. E, mesmo quando os chiquistas definem seu ídolo como "pessoa simples e humilde", estão praticando divinização às avessas e movidos por paixões religiosas.

Chico Xavier foi um dos artífices do truque do "bombardeio de amor", uma estratégia muitíssimo perigosa de dominação. Nas reuniões "mediúnicas" comandadas por ele, todo um repertório de apelos emocionais era feito, de forma a arrancar a catarse emotiva dos frequentadores, num clima de exagerada afetividade motivado pelos aparatos de beleza e de emotividade profunda.

Para dominar o jornalista Humberto de Campos Filho, em 1957, todo um teatro foi feito. Se a encenação das Caravanas de Amor era anualmente produzida, através de um Assistencialismo que "excepcionalmente" ajuda os pobres de forma paliativa em determinados períodos, no caso do filho do escritor maranhense Humberto de Campos, ela tinha que ser muitíssimo elaborada.

Um dos pontos máximos foi quando o "médium" abraçou o filho do escritor. Juntando os apelos emocionais da doutrinária do início ao fim e o abraço após o fim da sessão, o que se observou não foi a prática saudável de uma "afeição verdadeira" de "sincera misericórdia", mas ao apelo do "bombardeio de amor" que desarmou Humberto de Campos Filho.

O "amoroso" ardil foi facilitado porque, anos antes, a viúva de Humberto, Dona Catarina Vergolina de Campos, conhecida pelo apelido de Dona Paquita, havia falecido. Ela liderava o processo judicial contra o "médium" e a FEB, e, com a cilada que dominou o filho Humberto, sua falecida mãe ficou responsabilizada pela ação judicial que, sabemos, deu em nada. Até parece que foi Gilmar Mendes que inocentou Chico Xavier e a FEB. Mas isso foi em 1944.

COMOÇÃO VIROU "MASTURBAÇÃO COM OS OLHOS"

O grande perigo do "bombardeio de amor" é que Chico Xavier conseguiu dominar muita gente a ponto de se tornar um suposto símbolo das virtudes humanas, como se os conceitos de "bondade", "caridade", "amor" e "solidariedade" etc, tivessem sido patenteados pelo "médium" e seus seguidores (como Divaldo Franco, por exemplo).

É como se a "bondade humana" fosse uma logomarca de propriedade dos "médiuns espíritas" e se transformado em "franquia", na qual "todos podem livremente obter" desde que haja o vínculo de imagem aos "médiuns". É aquela coisa: "o uso é livre, mas é obrigatório dar crédito ao responsável".

Isso é bom? Isso é péssimo. O domínio com que os ídolos religiosos que deturparam o legado de Allan Kardec, rebaixando-o a um sub-Catolicismo medieval, tomado pelos mais diversos e sutis apelos emotivos, revela muitos e graves equívocos.

Primeiro, o "bombardeio de amor" das reuniões "espíritas" se tornou um ingrediente obrigatório para supostos eventos de esclarecimento e socorro moral, que se convertem em entretenimentos baratos de catarse, no qual a comoção virou um elemento já previamente esperado, uma "masturbação com os olhos" na qual o choro virou uma mera diversão. E, o que é mais preocupante: frequentemente as pessoas se divertem às custas da desgraça alheia, através de relatos de "dor e superação".

As pessoas já chegam aos "centros espíritas" esperando se comoverem com algum relato dado em palestra. Há toda uma expectativa de estórias comoventes ou, quando muito, de "grandes lições de vida". E isso mostra que a coisa não é boa.

As reuniões "mediúnicas" de Chico Xavier se comparavam aos entretenimentos das "tábuas Ouija" estudados por Kardec. Ironicamente, se os espetáculos de mesas girantes e objetos se movendo - nos quais havia fortes indícios de fraudes - serviram para os estudos questionadores do pedagogo de Lyon, no Brasil a Ciência Espírita, através de suposta mediunidade, foi rebaixada ao velho recreio com o mesmo apelo sombrio das "tábuas Ouija".

ATRIBUÍDAS A DIFERENTES ESPÍRITOS, ASSINATURAS SEGUEM O MESMO ESTILO PESSOAL DA CALIGRAFIA DE CHICO XAVIER. PROBLEMAS ASSIM TENTAM SER OCULTADOS PELO TRUQUE DOMINADOR DO "BOMBARDEIO DE AMOR".

O que poucos imaginam é que o "bombardeio de amor" cega a razão. Cria-se, no Brasil, uma falácia de dar validade a coisas que "escapam às percepções da razão", uma visão medieval que faz com que certos absurdos sejam aceitos, quando eles se relacionam a mitos da fé e do misticismo.

ANTI-KARDECIANO

O "bombardeio de amor", de uma forma ou de outra, foi condenado, não com o uso dessa expressão, pela bibliografia kardeciana. Mas seu sentido é identificado quando o pedagogo francês e seus mensageiros espirituais descrevem estratégias de espíritos mistificadores em dominar as pessoas, apelando para palavras como "Deus, amor e caridade" para inserir ideias levianas e absurdas.

As reuniões "mediúnicas" de Chico Xavier são exemplo disso. Espetáculos de catarse emocional que fariam sentido em algum canto europeu da Idade Média, onde a mistificação prevalece sobre a razão, conforme podemos atestar diante de tantos casos de pessoas consideradas céticas ou leigas que, ao assistirem a tais sessões, saiam praticamente hipnotizadas com aquilo que, ingenuamente, entendem como "vibrações elevadas de amor e solidariedade".

Ninguém parou para pensar o que está por trás de tantos apelos fortemente emotivos. Do mesmo modo, ninguém sequer desconfiou se uma doutrina considerada racional como o Espiritismo seria capaz de permitir eventos como esse, dotados da mais piegas e deslavada catarse emocional, que mal consegue esconder um apelo igrejeiro por baixo dessas manifestações de "profundo amor".

A situação é tão grave que, diante desses eventos ritualísticos, em que a carga emotiva substitui a antiga pompa dos ritos católicos medievais, mas mantém o mesmo sentido manipulador e dominador de fiéis, as "mensagens mediúnicas" atribuídas a entes queridos falecidos são aceitas como "autênticas" mesmo com um detalhe seriamente comprometedor.

Enquanto as assinaturas dos ditos mortos divergem drasticamente das caligrafias mostradas nos documentos de identidade, as mesmas apresentam o mesmo estilo pessoal de Chico Xavier, facilmente identificável mesmo quando a assinatura parece mais corrida e apressada.

Tomados pela emotividade hipnótica, as pessoas não entendem por que o "bombardeio de amor" é tão nocivo. Mas seu efeito colateral também ajuda a explicar o caráter maléfico desse apelo: as pessoas são tomadas de emoções aparentemente elevadas e saudáveis, mas basta um questionamento qualquer para as "amorosas" pessoas se explodirem em raiva e rancor.

Há uma grande diferença entre a emotividade saudável e a emotividade doentia. Na emotividade saudável, não há o aspecto catártico nem o transe extasiante que as paixões cegas possuem, e paixão cega é o resultado produzido pelo "bombardeio de amor", que traz não uma energia elevada da admiração saudável, mas a energia pesada e escravizante da adoração cega e fanática.

É por isso que, diante dos atos de violência contra a mulher, seus agressores e assassinos falam tanto em "amor" e "paixão". Mas o que os feminicidas sentem é paixão cega, uma sensação pesada de apego, não o "amor verdadeiro" que muitos pensavam que tais homens sentiam por suas "companheiras". Até porque, segundo o dito popular, "quem ama não mata".

Outro aspecto a considerar é que a "alegria" que o "bombardeio de amor" traz tem efeitos similares aos da ingestão de um entorpecente como a cocaína. Há ilusões de que a auto-estima e a confiança melhoraram, que a alegria tornou-se plena, que a paz passou a reinar, mas é só surgir uma contrariedade para que a pessoa aparentemente feliz e serena se exploda em raiva, rancor, irritação profunda e até incontrolável.

Muitos questionadores de Chico Xavier revelam que já receberam ameaças, comentários irônicos (do tipo dizer, em falsa mansidão, que o "irmão (questionador) está alterado") e até bullying por parte dos adeptos e fãs do "médium". Nas redes sociais, reduto de atos sociopatas, não por acaso o "médium" possui cadeira cativa, praticamente dominando, mais que o próprio Kardec, as páginas relacionadas à Doutrina Espírita existentes.

O que se pode concluir com o "bombardeio de amor" é que ele, sendo uma modalidade mais perigosa do Ad Passiones (apelo à emoção) que é um tipo de falácia, serve para proteger a deturpação do Espiritismo e evitar que os questionamentos se aprofundem.

Assim, há gente que, como quem acredita num galinheiro recuperado por raposas, considere que os próprios "médiuns" deturpadores do Espiritismo possam recuperar as bases doutrinárias que eles mesmos destruíram. Infelizmente, a emoção trava o raciocínio em muita gente.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A esperteza de Chico Xavier em dois episódios

O JORNALISTA POLICIAL ORLANDO CRISCUOLO

No caso do suposto crime do disparo acidental que matou o jovem Maurício Garcez Henrique, do qual saiu inocentado o amigo José Divino Nunes, um artigo chama a atenção. De autoria de Orlando Criscuolo, conhecido repórter policial da mídia paulista, por sua trajetória no Diário da Noite de São Paulo, ele expressou todo o seu deslumbramento movido pelas paixões religiosas e pela fascinação obsessiva em torno do "médium" Francisco Cândido Xavier.

Criscuolo narra uma experiência que havia tido visitando o anti-médium mineiro há muitos anos, sendo que o jornalista não creditou o ano exato. Como informações afirmam que Criscuolo atuava na imprensa nos anos 1950, 1960 e 1970 - o artigo é de 1979 - , infere-se que a antiga experiência havia ocorrido entre os anos 1950 e 1960.

O jornalista disse que havia escrito uma carta com nome e endereço fictícios que entregaria ao "médium". Nela se falava de um mal e se pedia qual o remédio certo para tal moléstia. Criscuolo dizia ter sido ele cético na época e queria usar um "meio menos honesto" para denunciar possíveis fraudes "mediúnicas" à opinião pública.

Ao chegar, ele apresentou a missiva para o "médium" e ele analisou, aparentemente sob orientação de Emmanuel. Depois, declarou "perdão" ao jornalista e disse que "só há um remédio: a verdade". A multidão teria olhado para o jornalista, que ficou com um certo medo, naquela ocasião.

Será uma combinação prévia, na qual o jornalista encenava seu ceticismo e medo? Ou seria um atestado da esperteza de Chico Xavier, que nunca foi a pessoa simples e humilde que tanto se alardeia oficialmente. Note-se que o Diário da Noite era integrante dos Diários Associados, grupo empresarial que publicava a revista O Cruzeiro e cujo dono era Assis Chateaubriand, o Chatô.

Em O Cruzeiro, em 1944, os jornalistas David Nasser e Jean Manzon, este como repórter fotográfico, foram entrevistar Chico e foram avisados que não poderiam entrevistá-lo naquela vez. Eles criaram um truque no qual se passavam por jornalistas estadunidenses - se bem que Manzon poderia aproveitar sua naturalidade francesa para se passar por alguém daquele país - e, com isso, conseguiram entrevistar o "médium".

Os dois saíram satisfeitos com a reportagem e foram embora. Mas ao verificar um dos livros, reconheceram a dedicatória de Emmanuel citando o nome de David Nasser, o que pode ser explicado pelo fato de Nasser ter sido então um repórter já famoso em seu meio e não ter se deixado enganar o esperto "médium", até porque Nasser não aparentava um repórter vindo dos EUA.

O "INVENTOR DE NOTÍCIAS", DAVID NASSER.

Nos anos 1970, tanto Criscuolo e Nasser pareciam "arrependidos" do ceticismo. Imagina-se se esses relatos não teriam sido truques combinados com o "médium" que, blindado pelos Diários Associados, queria forjar um contato com pessoas céticas?

Não se sabe, embora muitos aspectos verídicos se observem na reportagem de David Nasser - embora ele tenha se consagrado como "inventor de notícias" - como o fato de Chico Xavier ser um grande leitor de livros. E há uma foto de Jean Manzon mostrando Chico copiando informações de livros e jornais, o que traz fortes indícios de que suas "psicografias" haviam sido fraudulentas.

O artigo de Orlando Criscuolo foi publicado no Diário da Noite de São Paulo, de 10 de setembro de 1979. O texto que reproduzimos sob o caso David Nasser e Jean Manzon é um fragmento de um trecho do livro As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior, de 2003.

No caso de Criscuolo, chama-se a atenção no forte teor de fascinação obsessiva por Chico Xavier, marcado pelo perigoso processo do bombardeio de amor, que fez o jornalista chorar durante o segundo encontro com o "médium" e, no artigo, defini-lo como "quase Deus". Da parte de Nasser, o deslumbramento existe, porém parece bem mais discreto, ao narrar, em 1974, o episódio ocorrido três décadas antes.

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CHICO XAVIER SALVOU INOCENTE DA CADEIA

Por Orlando Criscuolo - Diário da Noite (SP), 10 de setembro de 1979.

Francisco Cândido Xavier, ou simples e carinhosamente Chico Xavier.

Ao longo dos seus cinquenta e dois anos de atividades, somente duas vezes tive contato com ele. A primeira, e lá se vão muitos anos, foi quando lhe entreguei uma carta com um nome e endereço fictícios para que ele, auxiliado por Emmanuel, seu guia espiritual, respondesse qual ou quais remédios, para o espírito ou para o corpo, que deveriam ser indicados em favor da “pessoa” cuja carta ele segurava entre os dedos de sua mão esquerda. Olhos cerrados, fisionomia serena, apenas seus lábios se movimentavam na boca semi-aberta.

A seu lado, contrastando com o ambiente de respeito que se podia sentir nos músculos de todos os rostos das pessoas que superlotavam a pequena sala onde nos encontrávamos, eu não conseguia dissimular um sorriso maroto que brotava de dentro de mim.

Era o repórter procurando, por meios menos honestos, encontrar um caminho para denunciar publicamente uma farsa ou uma “mistificação grosseira” que já estava sendo aceita por uma incalculável multidão como uma verdade incontestável.

Francisco Cândido Xavier largou lentamente a carta-mentira sobre a mesa, colocou a mão esquerda sobre os olhos sempre cerrados e enquanto os dedos da mão direita se crispavam em torno do lápis, seus lábios pronunciaram uma frase que o lápis ágil se encarregou de marcar no papel.

“Que Deus te perdoe meu filho.”

Todos os olhares, a maioria de espanto, se voltaram para mim. Ele apanhou a “carta-mentira” e colocando-a junto às minhas mãos abertas sobre a mesa, com uma serenidade que só os santos podem ter, disse:

“Para este mal só há um remédio: a verdade.”

Não fui capaz de escrever uma só linha em forma de reportagem sobre este encontro. Pela primeira vez em minha vida eu senti medo.

Muitos anos depois, num dos corredores da TV Tupi de São Paulo, quando Chico Xavier se preparava para uma entrevista no “Pinga-Fogo”, vi quando ele, delicadamente, deixou de conversar com um pequeno grupo de pessoas voltando-se para uma senhora idosa que estava às suas costas, e que ele provavelmente jamais tinha visto, foi até ela e segurou as duas mãos trêmulas da mulher entre as suas, com uma mansidão de santo. Algumas lágrimas rolaram pelas faces da velhinha. Chico Xavier quis falar, mas não pôde. Tive a impressão de que por trás de seus óculos escuros seus olhos também ficaram embaciados por lágrimas. Quando eu quis identificar a velhinha, ela tinha desaparecido do prédio. Um mistério, que de simples tornou-se indecifrável para o repórter.

Santa Izildinha, Antoninho da Rocha Marmo, Donizete Tavares de Lima, o padre de Tambaú, José de Freitas, o Arigó e muitos outros são nomes que figuram em muitas de minhas reportagens e que me recordam grandes e controvertidos acontecimentos. São nomes que fizeram com que milhares de lágrimas fossem derramadas por gratidão, por respeito ou até mesmo por um desejo insatisfeito. Nenhum deles, nunca, arrancou uma só lágrima dos meus olhos.

Nesta última quarta-feira, porém, tive que cerrar fortemente os olhos para que eles não se enchessem de lágrimas, lágrimas de arrependimento por nunca ter tido a coragem de escrever uma só reportagem sobre Chico Xavier. Hoje, ela aqui está. E a escrevo convicto de que o famoso médium espírita de Uberaba é algo mais do que um homem: é quase um Deus.

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TRECHO DO LIVRO AS VIDAS DE CHICO XAVIER, DE MARCEL SOUTO MAIOR, 2003.

Para liquidar o assunto de vez, David Nasser, Jean Manzon e o piloto do avião de Chateaubriand, Henrique Natividade, bolaram um plano infalível. Nasser e Manzon se apresentariam como repórteres americanos e Natividade faria o papel de intérprete da dupla. Chico ficaria seduzido pela idéia de ser notícia internacional e se sentiria mais à vontade diante dos estrangeiros. Afinal de contas, a reportagem seria lida longe dali, longe do Rio. 

Havia um porém: Rômulo Joviano. O engenheiro conhecia a identidade deles e podia desmascarar o trio a qualquer momento. Precisavam concluir o serviço antes da chegada do patrão de Chico. Mas, mesmo sendo rápidos, eles ainda corriam perigo. E se Rômulo telefonasse para alertar o empregado? Nasser, Manzon e Natividade tomaram a decisão: cortariam o fio do telefone do entrevistado. Dito e feito. 

O truque deu certo. Chico escancarou as portas de casa para os “estrangeiros” e posou para fotos então inéditas na imprensa. [...] Após uma hora e meia de entrevista, Jean Manzon, David Nasser e o “intérprete” se despediram do entrevistado. Enganaram o “idiota” e ainda ganharam livros de presente. Jogaram os exemplares na mala e saíram às pressas, eufóricos. No dia seguinte, estavam no Rio. 

A reportagem foi publicada no dia 12 de agosto com uma lacuna estranha. Ela não mencionou como os jornalistas conseguiram passar o vidente para trás. Nasser jogou fora a chance de lançar a dúvida: Se Chico tem um guia e tem acesso aos espíritos, como foi enganado tão facilmente? 

Chico leu o texto e ficou apavorado, O juiz não teria dúvidas. O rapaz já imaginava o veredicto: todos os indícios levam a crer que Francisco Cândido Xavier imitou o estilo de Humberto de Campos. Culpado. Sacudia-se, em meio à violenta crise de choro, quando Emmanuel voltou. Estava inspirado: 

Chico, você tem que agradecer. Jesus foi para a cruz e você foi só para O Cruzeiro. 

O réu não conseguiu achar graça. Por que Emmanuel não evitou aquele vexame? Por que não desmascarou a fraude e revelou a identidade dos jornalistas? 

Só trinta anos depois, uma reportagem publicada por O Dia, em 28 de abril, e assinada por João Antero de Carvalho, revelaria, em detalhes, os bastidores daquela saga de David Nasser e Jean Manzon. A confissão foi feita por um Nasser arrependido, o mesmo capaz de definir Chico Xavier como “o maior remorso da minha vida”. 

O repórter voltou no tempo e reconstituiu a noite em que passava para o papel seu furo jornalístico, dois dias depois do encontro com Chico Xavier. Já era madrugada, quando ele foi interrompido por um telefonema de Jean Manzon. O fotógrafo parecia nervoso.  

- David, você trouxe aquele livro que o homem nos ofereceu?

- Claro que sim.

- Pois bem, abra-o na primeira página e leia a dedicatória. Nasser largou o telefone fora do gancho e, curioso, correu à procura de seu exemplar. Levou um susto ao deparar com a frase:  

“Ao irmão David Nasser, oferece Emmanuel”. 

- Que negócio é esse, Manzon, alguém revelou nossa identidade? 

O fotógrafo e o motorista também foram pegos de surpresa. Diante do mistério, os três fizeram um pacto de silêncio. A reportagem saiu sem aquele episódio.  


Segundo Nasser, a verdade, em jornalismo, era menos importante do que a verossimilhança. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Chico Xavier pegou carona em caso criminal que seria resolvido sem ele

MAURÍCIO GARCEZ HENRIQUE, MORTO POR DISPARO ACIDENTAL FEITO POR AMIGO.

Um episódio que comprova o quanto o "médium" Francisco Cândido Xavier beneficiou e foi beneficiado pelo sensacionalismo jornalístico que o transformou num "super-médium" e num dublê de filantropo e pensador, associando a ele uma suposta solução de um crime que mostrava indícios de que seria resolvido sem sua colaboração.

O fato foi esse. Em 08 de maio de 1976, Maurício Garcez Henrique estava na casa do amigo José Divino Nunes, no bairro de Campinas, em Goiânia. Enquanto conversavam na sala, Maurício pegou o revólver da mala do pai de José Divino e descarregou a arma, tirando as balas e, de brincadeira, fingiu apontar a arma ao amigo que logo disse para largar o objeto.

José tomou o revólver de Maurício, que foi para a cozinha buscar cigarros. Enquanto isso, José ligava o aparelho de som e girava o dial para mudar a estação de rádio. De repente, o revólver fez um disparo, Maurício soltou um grito e José foi logo socorrê-lo, estando este gravemente ferido. Maurício morreu depois.

O caso foi registrado na 6ª Vara Criminal de Goiânia e, a princípio, José Divino foi acusado de homicídio doloso, quando há intenção de matar, mas de acordo com depoimento de José e de seus familiares, o que ocorreu foi homicídio culposo, feito sem intenção de tirar a vida de outrem. Ainda assim, o caso permaneceu um mistério nunca oficialmente resolvido.

Mas eis que, dois dias depois, "super" Chico Xavier aparece sob a promessa "heroica" de resolver a situação. No dia 27 de maio de 1978, ele dá início a uma série de supostas psicografias atribuídas ao espírito de Maurício das quais a primeira carta está reproduzida a seguir, reproduzindo sempre aquele estilo igrejeiro e piegas das "cartas mediúnicas", que seguem o mesmo pensamento e começam com saudações como "querida mamãe" ou "querida mamãe, papai, Fulana minha irmã etc". Vejamos:

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Querida Mamãe, meu querido pai, querida Maria José e querida Nádia.

Estou em oração, pedindo para nós a benção de Deus. Não posso escrever muito; venho até aqui, com meu avô Henrique, só para lhes pedir resignação e coragem.

Peço-lhes não recordar a minha volta para cá, criando pensamentos tristes. O José Divino e nem ninguém teve culpa em meu caso. Brincávamos a respeito da possibilidade de se ferir alguém, pela imagem no espelho; sem que o momento fosse para qualquer movimento meu, o tiro me alcançou, sem que a culpa fosse do amigo, ou minha mesmo. O resultado foi aquele. Hospitalização de emergência, para deixar o corpo longe de casa.

Se alguém deve pedir perdão, sou eu, porque não devia ter admitido brincar, ao invés de estudar.
Mas meu avô e outros amigos me socorreram e fui levado para Anápolis, para ser tratado por uma enfermeira que dirige uma escola de fé e amor ao próximo, que nos diz ser a irmã Terezona, amiga das crianças.

Soube que ela conhece meu avô e nossa família, sendo agora uma benfeitora, que preciso agradecer e mencionar.

Quanto ao mais, rogo à Nádia e à Maria José, minhas queridas irmãs, para não reclamarem e nem se ressentirem contra ninguém. Estou vivo e com muita vontade de melhorar.

Queridos pais, tudo acontece para o nosso bem e creio que seria pior para mim se houvesse enveredado pelos becos dos tóxicos, dos quais muita pouca gente consegue voltar sem graves perdas do espírito.

Estou com saudades, mas estou encarando a situação com fé em Deus e com a certeza de um futuro melhor.

Recebam, querido papai e querida mamãe, com as nossas queridas Nádia e Maria José, e com todos os nossos, um abraço de muito carinho e respeito, do filho que lhes pede perdão pelos contratempos havidos.

Prometendo melhorar, para faze-los tão felizes quando eu puder, sou o filho e o irmão saudoso e agradecido,

Maurício Garcez Henrique.

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No livro Lealdade, organizado por Hércio Marcos Cintra Arantes e lançado originalmente em 1982 por uma pequena editora - hoje o livro é comercializado pela igrejista editora IDE - , há um histórico dos fatos e da "colaboração" de Chico Xavier para supostamente resolver o crime.

O juiz da 6ª Vara Criminal de Goiânia na época (1978-1979), Orimar de Bastos, havia acolhido a "psicografia" e, tomado de uma certa fascinação obsessiva, declarou:

"Temos que dar credibilidade à mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, anexada aos autos, onde a vítima relata o fato e isenta de culpa o acusado, discorrendo sobre as brincadeiras com o revólver e o disparo da arma. Coaduna este relato com as declarações prestadas por José Divino, quando do seu interrogatório".


O DOCUMENTO DE IDENTIDADE DE MAURÍCIO E UM FRAGMENTO DA CARTA LANÇADA POR CHICO XAVIER: ASSINATURAS BASTANTE DIFERENTES.

Mas alguns fatores estranhos devem ser observados. Orimar achou que as assinaturas eram semelhantes e que, com a coincidência do relato de José Divino e o conteúdo da carta, estava provada a inocência de José Divino, hipótese que no entanto poderia ter sido provada de outra forma, sem a necessidade da suposta mensagem mediúnica. Pelo contexto, é bem provável que Maurício perdoasse José, não precisando que a "psicografia" informasse isso.

Todavia, as assinaturas, analisadas acima, comparando o fragmento do manuscrito lançado por Chico Xavier e a assinatura presente no documento de identidade de Maurício, percebe-se que Orimar foi apressado e nem deve ter se lembrado das assinaturas. Talvez o juiz fosse muito ocupado para analisar as coisas e deve ter dado seu parecer através de uma primeira e precipitada impressão.

As caligrafias são totalmente diferentes. Não há uma hipótese que indique semelhança, e observa-se que a caligrafia da suposta psicografia tem o mesmo estilo da caligrafia pessoal do "médium". Mesmo uma boa vontade não consegue colher semelhança alguma nas duas assinaturas, em relação a Maurício, mas também não consegue desmentir a semelhança muito grande com a caligrafia pessoal de Chico Xavier.

Quanto às informações da carta, o próprio livro Lealdade fala de visitas constantes dos familiares de Maurício a Uberaba, o que poderia sugerir o fornecimento de informações através da "leitura fria". Há no Grupo Espírita da Prece, onde trabalhou Chico Xavier, uma equipe de funcionários - que o "espiritismo" chama de "tarefeiros" - treinados para analisar gestos, formas de dicção e informações dadas pelos clientes para colher dados para supostas psicografias.

Há também as consultas de fontes da imprensa, geralmente fornecidas por familiares ou mesmo por integrantes de "centros espíritas" dos locais dos incidentes. Há também objetos pessoais, como diários ou algumas cartas ou anotações diversas, relacionadas ao morto ou escritas por ele. Hoje até o perfil nas redes sociais serve para colher essas informações.

Junta-se tudo isso e cria-se um repertório para forjar uma falsa psicografia de conteúdo verossímil. A sorte, por exemplo, é se uma tia ou um primo de um morto fornecerem informações que não são de conhecimento do pai e da mãe do dito cujo, e com isso se espalha a falácia de que a "psicografia" apresentou informações que "a família do morto desconhecia absolutamente".

A "contribuição" de Chico Xavier, portanto, além de desnecessária, era duvidosa para servir de prova de inocência de José Divino. A inocência já tinha probabilidade de quase certeza, e outros meios como perícias e outras investigações poderiam chegar ao resultado, sem a "ajuda psicográfica".

Por outro lado, a atuação do "médium" se revelou uma intromissão, que favoreceu a imprensa sensacionalista e garantiu a projeção de um ídolo religioso através dessa fraude que causou a comoção pública e fez as "casas espíritas" de todo o país lotarem, diante de apelo tão fortemente emocional.

O episódio representou, mais uma vez, o espetáculo pitoresco da suposta mediunidade, feito à revelia da Ciência Espírita, criar uma falsa ideia do que seria o trabalho mediúnico, mediante conceitos que eram difundidos ao arrepio dos ensinamentos kardecianos originais. Portanto, a "psicografia" foi, na verdade, inútil, e só serviu para os propósitos acima citados.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Atenção, esquerdistas! Fundador de Caros Amigos, Léo Gilson Ribeiro reprovou Chico Xavier


Não há como entender por que setores das chamadas esquerdas sentem alguma complacência com o "médium" Francisco Cândido Xavier. Ele sempre foi um católico ortodoxo, bastante conservador, apoiou o golpe de 1964, defendeu a ditadura civil-militar, apoiou Fernando Collor de Mello para presidente da República em 1989 e era defensor da Teologia do Sofrimento, corrente mais retrógrada do Catolicismo.

Não bastasse isso, Chico Xavier foi definido como "progressista" de graça, sem qualquer motivo que tenha um pingo de consistência ou verossimilhança. Ele sempre condenava o questionamento, a crítica, em sua maior divergência com Allan Kardec, que sempre estimulou o debate a ponto de, no desenvolvimento das ideias, o pedagogo francês preferir a prevalência da Ciência sobre o Espiritismo.

Quantos apelos para a aceitação do sofrimento em silêncio, à submissão aos algozes, à resignação com os infortúnios da vida! Isso é progressista? Pois enquanto as esquerdas mais cordeirinhas - que caem facilmente em armadilhas com apelos emocionais de pessoas pobres sorridentes (o "funk", subproduto da mídia hegemônica, é exemplo disso) - aceitam o retrógrado Chico Xavier, lembremos de um dos grandes intelectuais brasileiros.

Léo Gilson Ribeiro, falecido há dez anos, havia feito, na revista Realidade, em 1971, uma crítica severa às supostas psicografias do anti-médium mineiro, em referência sobretudo a obras que causaram indignação nos meios literários, como o livro Parnaso de Além-Túmulo - estranhamente reparado cinco vezes - e as obras que levam o nome de Humberto de Campos ou Irmão X.

"Era doutor em literatura pelas universidades de Hamburgo e Heidelberg e amigo pessoal do escritor Guimarães Rosa e da poeta Hilda Hilst; com toda essa bagagem, tornou-se um dos críticos literários mais influentes e mais respeitados do país. Foi premiado com o Jabuti em 1968 e com o Esso (de reportagem) em 1969", diz um texto de Caros Amigos, a respeito da morte de Léo.

Léo era um renomado intelectual que atuou como repórter e redator na revista Realidade, nos anos 1960 e 1970, e foi um dos fundadores no fim dos anos 1990, da revista Caros Amigos, um dos principais periódicos da mídia alternativa.

"Durante toda a sua vida Leo Gilson foi um batalhador pela cultura das letras no Brasil. Atacava ferinamente as traduções malfeitas, as edições improvisadas – procurava impor o respeito ao leitor. Combateu incansavelmente a incultura nacional, procurando difundir a boa literatura por todos os meios a seu alcance", diz outro texto da nota fúnebre de Caros Amigos.

A mesma nota acrescenta: "Profundo conhecedor da literatura universal, não se conformava com o fato de os brasileiros não terem maior consideração pela sua própria leitura; achava, por exemplo, perfeitamente cabível que o poeta Carlos Drummond de Andrade fosse considerado como sendo de estatura mundial e merecedor do Nobel".

"Além dos muitos ensaios publicados, escreveu livros de crítica literária entre os quais se destacam “Cronistas do Absurdo” (ed. José Álvaro, 1964) e “O Continente Submerso” (Editora Best-Seller,1988). No teatro escreveu a peça “Balada de Manhattan” que recebeu o Prêmio Governador do Estado em 1971 e traduziu textos de Tennessee Williams e Steven Berkoff", finaliza a nota sobre o escritor feita pela Caros Amigos.

Léo também foi defensor dos movimentos sociais e reprovava o totalitarismo do comunismo soviético, pois seu esquerdismo era democrático e ele fazia essa defesa no seu trabalho jornalístico, sendo um dos grandes batalhadores da mídia alternativa no Brasil.

O comentário de Léo Gilson Ribeiro sobre Chico Xavier é bastante contundente e traz uma análise, desagradável para muitos, sobre as irregularidades das supostas psicografias literárias, nas quais se observa claramente que estas fogem dos estilos originais dos mortos alegados.

Portanto, não é um intolerante religioso que fala contra o "bondoso trabalho" de um suposto médium, mas um crítico literário que é profundo conhecedor dos escritores brasileiros e não faz o tipo do especialista complacente que vê semelhanças onde não existem, tal como aqueles que confundem A com H. Léo tornou-se famoso por essa frase que encerra esta postagem, que podemos usar como recado aos esquerdistas que ainda sentem alguma complacência com os "médiuns espíritas":

"Uma coisa é clara: Quando o ‘espírito’ sobe, sua qualidade desce. É inconcebível que grandes criadores de nossa língua, depois da morte, fiquem por aí gargarejando o tatibitate espírita". 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Confusão na convenção do PSDB. Cadê a fraternidade?


Comparado com o "espiritismo" brasileiro quanto à blindagem - se bem que os "espíritas" já obtém larga vantagem - , o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira (que, apesar do nome, segue um perfil neoliberal e ideologicamente conservador), elegeu seu novo presidente nacional.

Dando fim à gestão de Aécio Neves - figura adorada pelos "espíritas" e que tinha recíproca admiração por Francisco Cândido Xavier (o "médium" sonhava com um líder político com as caraterísticas que ele mesmo, no final da vida, viu em Aécio) - , o católico Geraldo Alckmin, um dos membros da Opus Dei (corrente católica neomedieval, surgida na Espanha do ditador Francisco Franco - curiosa ironia, esse nome), foi eleito presidente do partido.

Os adeptos de Aécio Neves se esqueceram dos "princípios de fraternidade" e iniciaram um protesto, seguido de um bate-boca e ameaça de agressões, em vez de "orar em silêncio" pelo destino futuro de seu ex-comandante. Mas também até os adeptos de Chico Xavier adoram algum desentendimento, seja interno, como no caso de dizer se ele era ou não autor das supostas profecias da "data-limite", ou externo, quando reagem rispidamente a qualquer questionamento ao "médium" mineiro.

A ameaça de declínio político do senador mineiro, que perdeu o comando do PSDB, pode também representar o fim da realização de um sonho de Chico Xavier, que desejava que o futuro do Brasil estivesse nas mãos de um líder com perfil liberal, relativamente jovem e comprometido com ideais conservadores associados à paz e à solidariedade dos povos.

Aécio Neves, que visitou Chico Xavier no final de vida do "médium", se sentiu identificado com ele. Chico teve a mesma retribuição, vendo em Aécio o possível líder que em 1952 havia sido descrito por mensagem atribuída ao suposto espírito André Luiz. A aparente previsão foi divulgada no "centro espírita" Jesus de Nazareno, em Congonhas (MG), em 23 de dezembro de 1952.

Na época do falecimento de Chico Xavier, Aécio Neves - amigo de outro figurão comparado, desta vez em suposta filantropia, ao "médium", o apresentador Luciano Huck, outro fã ardoroso do religioso - havia dado depoimentos entusiasmados sobre o beato de Pedro Leopoldo e Uberaba:

"Chico Xavier é uma referência única de trabalho e solidariedade não só para os mineiros, mas para todos os brasileiros. Mesmo estando em estágio avançado de sua doença, ele continuava recebendo peregrinos que viajavam para encontrá-lo. Ele será sempre um exemplo de vida e humanidade muito importante. Ele era uma figura muito confortadora para todos, independente da religião de cada um".

"Em sua grandiosa simplicidade, ele será sempre uma referência para todos que, de alguma forma, têm responsabilidade pública. Minas, o Brasil, o mundo ficou menor com a morte de Chico Xavier".

O SONHO DE CHICO XAVIER DE VER UM CONTERRÂNEO LIBERAL GOVERNANDO O "CORAÇÃO DO MUNDO" E "PÁTRIA DO EVANGELHO" ESTÁ CADA VEZ MAIS DISTANTE. NA FOTO, AÉCIO NEVES DANDO ENTREVISTA COMO EX-PRESIDENTE NACIONAL DO PSDB.

Aécio Neves é mineiro como Chico Xavier e estabeleceu sua trajetória às custas de muita confusão. Ambos, político e "médium", são protegidos da mídia hegemônica e simbolizam valores sociais conservadores sob uma roupagem pretensamente moderna.

Apesar de seu perfil antiquado, das ideias ultraconservadoras e por ter sido um católico ortodoxo - que só cometia "heresia" na prática de paranormalidade, mais precária do que se imagina (na prática Xavier só se comunicava com os espíritos da mãe e de Emmanuel) - , Chico Xavier é visto como "moderno", "futurista" e até "progressista" por muitos seguidores, movidos pelos apelos emocionais associados a ele através das paixões religiosas.

A exemplo de Aécio, Chico Xavier cometeu muitos atos duvidosos, desde a apropriação de pessoas mortas em supostas psicografias, a exploração ostensiva e sensacionalista das tragédias familiares e o envolvimento em fraudes de materialização, não bastasse a própria deturpação do Espiritismo, com obras que deixariam envergonhado o próprio Allan Kardec, se então vivesse no Brasil.

Apesar desses atos, Chico foi blindado e, com a ajuda marqueteira do poder midiático associado à FEB, virou um "semi-deus" e um ídolo religioso marcado pelo fanatismo e deslumbramento de multidões, símbolo da catarse coletiva que retomou o poder em 2016, clamando por valores conservadores, pelo apego à fé em detrimento da razão e pela volta à submissão hierárquica, que na Economia é representada pelas "reformas" trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer.

Com a decadência política de Aécio Neves - que, se Chico estivesse vivo em 2014, teria, com certeza, apoiado o tucano na campanha presidencial - , a sociedade conservadora, na qual se insere o "movimento espírita", tenta algum esforço para lançar um candidato "jovem" e "liberal" com imagem de "conciliador" e defenda valores que apelem para o "respeito à fé" e o "apoio ao livre-mercado".

Resta agora Luciano Huck, o mais próximo do perfil sonhado por Chico Xavier (neste caso, como arremedo de filantropia que marca a trajetória de ambos), voltar atrás e reconsiderar sua candidatura à Presidência da República. Dizem rumores que sua aparente desistência é uma estratégia e que Luciano esperaria o povo pedir para ele ser presidente para ele se lançar, no próximo ano, oficialmente candidato. A "Pátria do Evangelho", neste caso, seria o "caldeirão".

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Ditadura apoiou "médiuns espíritas" para frear crescimento do ativismo sócio-político

O OPERÁRIO LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA, UM DOS MAIORES ATIVISTAS POLÍTICOS DO BRASIL.

É bom demais para ser verdade. "Médiuns espíritas", conhecidos pelo seu igrejismo ultraconservador, de repente viraram dublês de "ativistas", de "pensadores" e de "filantropos", deturpando e vinculando à sua imagem o legado dos verdadeiros ativistas políticos e sociais, sem que haja uma desconfiança séria a respeito disso.

A complacência aos "médiuns" é quase generalizada e mesmo os contestadores da deturpação espírita não avançam muito, paralizando-se diante do apelo fácil das paisagens floridas, dos céus ensolarados, das crianças sorridentes e dos apelos discursivos à "paz", à "caridade" e à "fraternidade". Tudo feito de forma que até quem é lesado por esses "médiuns" reage a eles com gratidão.

Tudo isso poderia permanecer como está, não fosse o lodo de tantas contradições, várias gravíssimas, que envolvem os "médiuns" e o contexto social em que se vive no Brasil. É uma trajetória de muitas confusões, que a preguiça mental, ante apelos emocionais tão bonitos, mas perigosos, permite deixar para lá e ver coerência onde não existe, o que só faz sentido ocorrer num país marcado por tantos absurdos como o Brasil.

Há uma grande confusão entre a reação da sociedade ultraconservadora aos trabalhos de Allan Kardec, na França, e a revolta que, por exemplo, intelectuais tiveram contra as atividades do suposto médium mineiro Francisco Cândido Xavier, das quais claramente revelam atitudes arrivistas de decisão própria do beato brasileiro.

Isso porque, no primeiro caso, sabe-se que o pedagogo francês teve uma trajetória discreta, límpida, modesta e cujos trabalhos de pesquisa não tiveram patrocínio, tendo sido os investimentos vindos do próprio professor, que apenas enfrentou a oposição de católicos conservadores por causa dos trabalhos científicos dos fenômenos paranormais.

É muitíssimo diferente do que se viu com Chico Xavier. Sua trajetória se deu com uma traquinagem literária, um livro de poemas supostamente de vários autores espirituais, Parnaso de Além-Túmulo, que se revelou uma fraude, remendado cinco vezes e com erros de estilística gravíssimos. O livro, que se valeu mais pelo sensacionalismo, revelou-se depois ser obra de Chico, do então presidente da FEB Antônio Wantuil de Freitas e de jornalistas e editores da federação.

A trajetória de Chico Xavier foi marcada por confusões que partiram das próprias decisões feitas ou apoiadas pelo "médium". Não se trata, portanto, de uma trajetória límpida, tamanha a coleção de pontos sombrios dos quais a razão se deve dar não ao suposto médium (embora se lhe seja dada, com muita insistência, devido a paixões religiosas), mas a seus contestadores, pelas incoerências imensas apontadas.

Mas o Brasil é um país atrasado no qual existem confusões de abordagem marcadas por apegos emocionais de um lado e complacências, conformismos e desigualdades de outro, confusões mentais e emotivas que foram construídas desde o período ditatorial e pela insistente manipulação midiática.

"MÉDIUNS" ANESTESIAVAM A SOCIEDADE BRASILEIRA

O que era o poder na ditadura militar? Na verdade, o que chamamos de "ditadura militar" era uma ditadura civil-militar, como hoje vemos uma ditadura jurídica do consórcio entre o Poder Judiciário propriamente dito, a Polícia Federal e o Ministério Público. Se hoje quem conduz o poder são juízes e procuradores, naquele tempo quem conduzia eram os generais. Mas eles tinham como base de apoio forças conservadoras ligadas, sobretudo, ao meio empresarial e midiático.

Hoje estamos acostumados como os "médiuns espíritas", muitos ficam alegremente confusos entre defini-los como "semi-deuses" ou "pessoas simples" (neste caso uma "divinização" às avessas) e aceita-se suas contradições e erros de tal forma que, se surgir um novo "médium", dotado de expressiva popularidade, acusado de estuprar uma adolescente, a culpa seria da vítima, acusada de ter sido "meretriz da antiga Gália" (a Gália romana corresponde à França de hoje).

Os "médiuns", para muitos, podem fazer o que querem, acham que podem tudo e, quando erram, acredita-se que eles estão isentos de sofrer os efeitos de seus próprios erros. A permissividade é tanta e em níveis estratosféricos que setores das esquerdas políticas brasileiras endeusam os "médiuns espíritas" mesmo sendo eles, no fundo, figuras bastante conservadoras e alinhadas à direita ideológica, embora se autoproclamem ideologicamente "neutros".

Pode parecer hoje algo difícil de explicar, mas, se o poder midiático da Rede Globo de Televisão passou a adotar os "médiuns espíritas" como ídolos religiosos "de todas as crenças" para combater a ascensão dos pastores eletrônicos como Edir Macedo e R. R. Soares. A imagem "ecumênica" dos "médiuns espíritas" era apenas um truque publicitário, de forma a tentar atrair pessoas dos mais diversos tipos de crenças, inclusive os ateus.

A ditadura apoiou essa estratégia, pois o poder político-militar-empresarial que respaldava o regime via nos "médiuns" uma forma de anestesiar a sociedade brasileira diante de um cenário de crise política e convulsões sociais, após o fracasso do "milagre brasileiro" em 1973-1974.

A ideia é transmitir um ideal de "paz, caridade e fraternidade" que promovesse o conformismo social dentro de valores sociais conservadores e evitar a mobilização social, por ela estar associada, em tese, a um grupo de figurões religiosos tidos como "superiores" por supostamente "falar com os mortos" e se julgarem "no caminho próximo a Deus".

São valores conservadores e retrógrados, baseados numa religiosidade que, no mundo desenvolvido, só fazia sentido na Idade Média, mas, no Brasil, ela persiste até hoje, e que pega desprevenidos até quem tenta contestar a "fé espírita" - fundamentada em valores do Catolicismo jesuíta do período colonial - e para no caminho diante de um turbilhão de apelos emotivos belos, porém traiçoeiros.

Sob o ponto de vista da ditadura, a ascensão dos "médiuns espíritas" seria uma forma de domesticar a sociedade, apelando para velhos paradigmas religiosos - não nos podemos esquecer que as principais religiões brasileiras apoiaram o golpe de 1964, sendo a Marcha da Família Unida pela Liberdade, que pediu a ditadura, tão "ecumênica" quanto o Você e a Paz - , também foi promovida para frear a ascensão de verdadeiros ativistas sociais e políticos.

A ideia é evitar que figuras como Martin Luther King, Malcolm X ou mesmo os artistas folk e outros ativistas diversos - LGBT, proletários, negros, hippies etc - florescessem no Brasil. Por isso os "médiuns espíritas", mesmo formados num contexto ultraconservador e educados por um Catolicismo ortodoxo e medieval, se passam por "ecumênicos" e forjem sua suposta neutralidade ideológica e seu pretenso pacifismo fraternal.

Isso não é uma atitude realmente pacificadora. Não há almoço grátis, diz o ditado popular. Os "médiuns", com seu culto à personalidade, querem ter o vínculo de imagem a tudo que for ativismo sócio-político, e fazem isso misturando alhos com bugalhos, juntando figuras realmente admiráveis como Charles Chaplin e Martin Luther King com figuras de valor duvidoso como Madre Teresa de Calcutá, acusada de deixar seus assistidos em condições degradantes.

A ideia é fazer concorrência com ativistas sócio-políticos como o líder operário Luís Inácio Lula da Silva, num contexto em que figuras progressistas como Juscelino Kubitschek e João Goulart tiveram mortes muito estranhas. Embora Lula, com o tempo, se revelasse também complacente com os "espíritas", era um propósito da ditadura civil-militar usar os "médiuns" para frear a ascensão dele como símbolo da redemocratização.

Os "espíritas" nunca lutaram pela redemocratização. Apoiaram a ditadura civil-militar do começo ao fim, e apenas achavam que as casernas iriam "aposentar o porrete" em algum momento. Religião ultraconservadora, o "espiritismo" brasileiro prega a Teologia do Sofrimento e, portanto, defende a permanência de cenários políticos conservadores, desejando apenas que "moderem" sua repressão, e sempre apelava para o povo brasileiro aceitar o sofrimento e reagir em silêncio e sem queixumes.

Por isso a sociedade conservadora, seja a ditadura civil-militar, seja os aliados de cunho jurídico, empresarial, midiático etc, defendeu a ascensão dos "médiuns espíritas", que eram alimentados pelo sensacionalismo televisivo e pela imprensa hegemônica, de forma a serem eles considerados "donos" de paradigmas "ideais" ligados aos conceitos de "caridade", "solidariedade" e "paz".

Muitos estão acostumados com isso, mas não deveriam. Afinal, os "médiuns espíritas" se revelam traidores do Espiritismo original, devido à veiculação de ideias que vão contra os ensinamentos originais da doutrina de Kardec.

Do mesmo modo, os "médiuns" também pregam valores moralistas retrógrados, defendendo até a "paz sem voz" do sofrimento aceito sem queixumes, embora essas pregações ocorram de uma forma que force o apoio até de progressistas de esquerda e de ateus. Isso se deve porque os "médiuns" se tornaram a mais bem sucedida armação da História do Brasil, com seus apelos emotivos muito fortes, que dominam e escravizam o inconsciente coletivo das multidões.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Divaldo Franco não tem moral para criticar obras anti-doutrinárias


A deturpação do "movimento espírita" tornou-se um processo tão engenhoso que os deturpadores passam a criticar a deturpação dos outros, pois no Brasil quem pratica a "vaticanização" do Espiritismo, mesmo quem diz criticar a própria "vaticanização" que praticam, se acha em posição de tamanho prestígio que se julga acima até mesmo da própria Codificação.

Faz-se o "espiritismo à moda da casa" que embora no discurso não se declare o "melhor de todos", se coloca numa posição que se faz de equivalente ou superior à própria Codificação. Ou seja, os deturpadores, no seu complexo de superioridade, chegam se achar acima do próprio Allan Kardec, como penetras numa festa que se acham mais anfitriões do que o próprio anfitrião.

Uma palestra do anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco é extremamente risível no que se diz à denúncia de uma série de obras anti-doutrinárias e pseudo-mediúnicas que surgem sob o nome do Espiritismo, algo que é bastante constrangedor, vindo daquele definido por José Herculano Pires como impostor e adepto de Jean-Baptiste Roustaing.

As queixas de Divaldo envolvem sobretudo obras de Ramatis e outras figuras de conteúdo bastante esotérico. Só que há rumores de que o próprio Divaldo, que se recusa a assumir seu roustanguismo - ele alega "não ter tido tempo" para ler Os Quatro Evangelhos, mas nós sabemos que obras ele realmente não teve tempo para ler com profundidade - , também é simpatizante de Ramatis e adora esoterismo, como Horóscopos e coisa parecida.

Uma prova dessa sua inclinação é que ele encampou para si uma grande piada esotérica, a das "crianças-índigo", uma espécie de combinação entre misticismo, discriminação social "positiva" - quando a discriminação sugere uma imagem falsamente positiva de um tipo social ou humano - , uma farsa esotérica feita para aquecer o mercado de livros de auto-ajuda, que produz milionários a cada temporada.

Além do mais, Divaldo Franco nem de longe é alguém que possa falar em nome da pureza doutrinária, ele que é o maior deturpador ainda vivo do Espiritismo e o maior da história da Doutrina Espírita depois de Chico Xavier. Suas obras são do mais puro igrejismo, suas paletras, da mais velha verborragia dos oradores à maneira dos da República Velha, e sua pretensão de "ter respostas prontas para tudo" é algo que não condiz a uma qualidade de intelectual tão atribuída a ele.

Muito pelo contrário, sabemos que um verdadeiro intelectual, um autêntico sábio, não traz respostas, mas perguntas. Não é alguém que necessariamente tenha respostas para todas as coisas, mas alguém que tem a iniciativa de lançar ideias e problemas antes não devidamente analisados.

Num país como o Brasil, considerado o terceiro mais ignorante do mundo e no qual as redes sociais - que mais divinizam os "médiuns espíritas" - são reduto de estupidez e reacionarismo extremos, a ideia mais popular de "sábio" é associada ao sujeito de poses aristocráticas, discurso verborrágico, pedantismo, pretensões de responder tudo e ares de pretensa erudição. Divaldo faz esse tipo.

Divaldo e Chico publicaram, ao longo das décadas, obras do mais escancarado igrejismo de raiz roustanguista. Muitas de suas ideias são lançadas ao arrepio dos ensinamentos kardecianos originais, e a malandragem de se supor, na "catolicização" do Espiritismo, que isso "está de acordo com Kardec" por causa da alegada "afinidade com Jesus Cristo", não resolve uma série de problemas identificados com a deturpação que atinge o legado da Codificação.

As próprias obras de Chico Xavier e Divaldo Franco são, portanto, anti-doutrinárias. Isso se revela numa leitura atenta, e na comparação cautelosa e sem a permissividade das paixões religiosas, e quem não está acostumado a tais questionamentos sairá bastante chocado ao saber que, por exemplo, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho (de autoria de Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas, mas atribuído levianamente ao espírito de Humberto de Campos), está mais próximo de Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing do que de qualquer obra kardeciana original.

O mais contrangedor é quando Divaldo Franco deu a sua receita para não aceitar as obras anti-doutrinárias: o silêncio. Segundo ele, deve-se apenas orar em silêncio que as obras fracassam e desaparecem. Essa recomendação também vai contra os ensinamentos kardecianos originais.

Afinal, o próprio Kardec já recomendou o debate e o questionamento como formas de zelar pela pureza doutrinária. O que desagrada muitos brasileiros é que esse questionamento, cujo roteiro está em obras como O Livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Médiuns, além de muitos artigos da Revista Espírita, acaba tendo como alvos os próprios "médiuns espíritas", eles mesmos os que mais investem em um massivo e persistente trabalho anti-doutrinário.

Se existe uma profusão de trabalhos anti-doutrinários, o próprio Divaldo, assim como Chico, devem ser responsabilizados por isso. O "médium" não pode achar que, tomado de prestígio religioso e social, seja isento de responsabilidades graves, e no caso das violações aos ensinamentos espíritas originais, os dois foram os primeiros a fazer e não podem ser inocentados de tão gravíssima influencia.

Em outras palavras, se Divaldo está preocupado com as obras anti-doutrinárias, ele deveria parar de ver o argueiro dos olhos de outros deturpadores e ver a trave nos seus próprios olhos, porque se há obras reconhecidamente anti-doutrinárias, foi ele e Chico Xavier os maiores responsáveis.

Um "médium" tem que ser responsabilizado, como eu, você e qualquer pessoa que comete um ato grave. O próprio Divaldo, recentemente, permitiu, no Você e a Paz, homenagear um político decadente como João Dória Jr. e aceitar, sem pedir qualquer perícia ou documentação técnica a respeito, que se lançasse um engodo alimentício rejeitado por entidades sérias de saúde pública e visto pelos movimentos sociais como uma "ofensa à dignidade humana".

Sabemos que muitos seguidores de Divaldo Franco irão protestar, mas ele tem sua responsabilidade pelo episódio da "farinata", porque cometeu decisões de muita gravidade. Ter prestígio religioso nunca pode permitir que se fuja a certas responsabilidades, e é constrangedor que "médiuns espíritas" só sejam responsabilizados quando cometem atos positivos, mas quando são atos negativos a culpa sempre vai para terceiros, para não dizer os "obsessores do além-túmulo".

Isso revela o estrago que a deturpação causou em todo o legado trabalhoso do Espiritismo. A aberrante figura dos "médiuns", movida pelo culto à personalidade, e uma intrincada série de artimanhas para que a deturpação fosse bem sucedida e aceita por todos, mostra o quanto de confusão se provocou, por culpa de Chico Xavier, Divaldo Franco e seus seguidores.

Não são os veteranos de toda uma série de confusões que podem falar mal da confusão dos outros, se os primeiros influíram de maneira decisiva para que isso acontecesse. A deturpação se espalhou como pólvora e essa sucessão de obras anti-doutrinárias se deu porque, há muito tempo, essa pólvora foi acesa por Chico Xavier e Divaldo Franco, os pioneiros traidores do Espiritismo.
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