sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Dissimulação: um dos maiores pecados dos "espíritas" brasileiros


Um dos maiores males cometidos pelos "espíritas" em toda sua trajetória, e que contribui para a crise irremediável de sua doutrina - que, mesmo calcada no Catolicismo medieval, busca, em certos momentos, aproximações estratégicas com os neopentecostais, sobretudo no que se refere à Escola Sem Partido - , é a dissimulação.

Desde a "fase dúbia" (oficialmente denominada "kardecismo") adotada nos últimos anos, em que a promessa de recuperar as bases espíritas originais foi apenas "conversa para boi dormir" dada por roustanguistas (inclusive "médiuns"!) para levarem vantagem no sabor das circunstâncias, a dissimulação foi uma caraterística inerente do "movimento espírita" brasileiro.

Pratica-se o roustanguismo mas renega-se o nome de Jean-Baptiste Roustaing. Critica-se a "vaticanização" do "movimento espírita", mas seus críticos são os que mais a praticam, devotamente. E quantos que reprovam os "imperadores Constantinos" que aparecem nas entranhas do "movimento espírita" que deveriam se olhar no espelho!

Assim como, no ensinamento de Jesus de Nazaré, fala-se que "nem todos os que dizem 'Senhor! Senhor!' entrarão no reino dos céus", nem todos os que alegam "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" à obra de Allan Kardec são realmente kardecianos autênticos (rejeita-se o termo "kardecista", por ele ter sido apropriado pelos próprios deturpadores).

Pelo contrário, os piores farsantes são aqueles que arrumam desculpas imensas por seus atos e dissimulam o tempo todo para dar uma impressão de que não cometem os delitos a que comprovadamente estão associados. Eles sempre adotam procedimentos, práticas e opiniões os quais desmentem diante da pior repercussão de seus atos.

Quantas dissimulações se escondem nas palestras "espíritas" em que corre o mel das palavras que agradam e distraem muita gente? Quantas dissimulações ocorrem diante de depoimentos, artifícios e tantas atividades que os "espíritas" se empenham para esconder erros, posturas obscuras, julgamentos de valor e tantas coisas inconvenientes e até ilícitas?

É o suposto médium que cria quadros falsos mas, de contatos em contatos na alta sociedade, alicia uma crítica de arte de considerável prestígio no seu meio para atribuir "autenticidade" a obras que se vê claramente fraudulentas.

É outro suposto médium seduzindo o herdeiro de um morto usurpado numa suposta psicografia ao convidar a vítima para uma doutrinária e para acompanhar, como espectador, um ostensivo espetáculo de Assistencialismo em que muita festa é feita para doar uns mantimentos que se esgotam em três semanas, enquanto os festejos duram até um ano por cada "caridade" realizada.

MITÔMANOS

Os "espíritas" dissimulam tanto as coisas que a doutrina brasileira popularizada por Francisco Cândido Xavier virou a religião da mitomania. A mitomania é um problema psicológico que faz com que uma pessoa, querendo levar alguma grande vantagem pessoal ou se livrar de encrencas por graves erros, passa a mentir sem o menor escrúpulo.

O livro Parnaso de Além-Túmulo de Chico Xavier acabou sendo o ponto inicial desse processo de mitomania que contagiou o "médium", um dos maiores arrivistas de toda a História do Brasil, ao se tornar uma coleção de pastiches feitas pelo "médium" sob a colaboração do próprio presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, e da equipe de editores e redatores do periódico da federação, o Reformador.

Num país maluco e desinformado como o Brasil, que comete o erro grosseiro de recorrer ainda mais à religião para resolver as crises vividas pelo país nos últimos anos (um pastor, fanático evangélico, tornado parlamentar, insatisfeito de haver FMs evangélicas em todo o país, quer impor canções religiosas em absolutamente todas as rádios do país), mitomania em nome do "pão dos pobres" tem status de "verdade indiscutível".

Em nome da religião, sem excluir o caso "espírita", as pessoas são capazes de mandar a lógica e a coerência às favas, iludidas que estão pelas percepções surreais que aprendem através da mística religiosa, desde factoides sensacionalistas como o "mar se partindo" do tempo de Moisés (na verdade, era apenas uma baixa de maré) e as mediunidades fake que apelam para "sermos irmãos".

Isso é muito ruim. Criar um terreno onde a fantasia e a mistificação estabelecem supremacia diante da realidade é extremamente negativo e é compreensível que pessoas que se prendem a essas crenças religiosas sob a alegação de que estão "protegidas por energias elevadas" são as que se tornam mais violentas e odiosas diante do menor questionamento.

Em certos casos, muitos dissimulam, no caso dos "espíritas". Comentários em tom de irônica candura são feitos como "o irmão está alterado", "o amigo está obsediado, dominado por outros amigos pouco esclarecidos", dados em aparente doçura por pessoas que, no íntimo, haviam espumado de raiva e rosnado palavras de puro rancor.

Ah, o que o "espiritismo" mostra de dissimulações, desde, pelo menos, 1932, quando a deturpação da Doutrina Espírita passou a ter Chico Xavier como propagandista, quantos e tão pesados volumes de livros seriam publicadas para registrar tantos exemplos! E é assustador que, apesar disso, os "espíritas" ainda estufam o peito dizendo que praticam e respeitam a coerência e o bom senso. Mais dissimulação...

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Humberto de Campos Filho sofreu assédio moral por Chico Xavier?

GRAVURA DO ESCRITOR HUMBERTO DE CAMPOS PUBLICADA NO JORNAL A MANHÃ, EM 1943.

Que Humberto de Campos Filho, o jornalista e produtor de TV que herdou o nome do falecido autor maranhense, foi seduzido pelo "médium" Francisco Cândido Xavier, isso é uma verdade que só os beatos religiosos e os complacentes com o "espiritismo" brasileiro em geral não querem admitir.

Assim que morreu Dona Catarina Vergolino de Campos, viúva de Humberto, Chico Xavier, ao saber do interesse do filho pelo "espiritismo" brasileiro, até pelo lobby que a religião tinha na TV Tupi, já existente no Rio de Janeiro e em São Paulo na década de 1950, resolveu "convidar" o produtor para uma doutrinária no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba.

Era uma "emboscada" motivada pelo pretexto da "caridade". Mas uma armadilha movida pelo maior deturpador do Espiritismo, um "médium" que reduziu o legado kardeciano a nada, rebaixando a novidade espírita a uma retomada do velho Catolicismo jesuíta medieval sob novo rótulo, que foi feita para tentar abafar processos judiciais recorrentes dos herdeiros do autor maranhense.

Chico Xavier foi um manipulador de corações e mentes dos mais habilidosos e traiçoeiros. A ele estão associadas técnicas como hipnose, Argumentum Ad Passiones (ou "apelo à emoção"), Assistencialismo (caridade fajuta que não traz resultados profundos, mas a promoção pessoal do "benfeitor") e até coitadismo ou vitimismo, já que Chico, quando duramente questionado, costumava, em sua esperteza, reagir em silêncio, posando-se de "vítima", para forçar a comoção pública.

Deturpador e oportunista, o "médium" que usurpou os grandes nomes de nossa literatura para produzir sensacionalismo, confusão e se autopromover com a bagunça que provocou, era também famoso pelo olhar maligno dos tempos de juventude, comprovada por uma foto com ele olhando de frente, publicada por O Globo em 1935. Ele foi também o que mais fez crescer e se consolidar a "vaticanização" que atingiu o Espiritismo no Brasil.

Processado pelos herdeiros de Humberto de Campos em 1944, Chico Xavier viveu seus dias de Aécio Neves e Michel Temer quando foi beneficiado pela seletividade da Justiça, que não conseguiu compreender que as "psicografias" atribuídas ao escritor maranhense destoavam claramente em estilo do acervo que o também acadêmico havia deixado em vida.

Só uma leitura mais atenta é suficiente para evidenciar as diferenças. O estilo original de Humberto de Campos era bem escrito, culto mas coloquial, com narrativa descontraída e ágil. A do "espírito Humberto" é melancólica, prolixa e rebuscada, pesada de se ler, excessivamente igrejeira e moralista, deixando muito claro um estilo que o escritor maranhense nunca seria capaz de expressar.

Embora haja eventuais plágios da obra de Humberto ou pastiches parciais de suas prosas, o que se observa na suposta psicografia trazida por Chico Xavier é que o estilo está mais para um arremedo ruim dos textos dos quatro evangelistas do Novo Testamento (Marcos, Lucas, Mateus e João) nas traduções em português que conhecemos. No conjunto da obra, quase nada de Humberto de Campos se encontra nas obras supostamente espirituais que levam seu nome.

De uma forma muitíssimo estranha, estão fora de catálogo os livros originais de Humberto de Campos. Indagamos até que ponto o lobby do "movimento espírita" no Brasil pode influir no mercado literário. Sabe-se que o "espiritismo" brasileiro é blindado pela Rede Globo, ele virou a "religião da Globo" e Chico, o "padroeiro da Globo". O poder midiático pode ter dado uma ajudinha para fazer os livros originais desaparecerem para dificultar leituras comparativas.

"ME ACEITE QUE EU SOU BONZINHO"

E tudo isso se deu porque Humberto de Campos Filho, que poderia ter mantido seu ceticismo, preferiu se render ao bom-mocismo do "médium", em um espetáculo anual, aparentemente de "caridade", que nunca trouxe resultados profundos e definitivos de transformação social, na cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro.

A reunião doutrinária no Grupo Espírita da Prece e a caravana ostensiva só para fazer meros donativos - uma clara demonstração de Assistencialismo e não de Assistência Social, como alardeiam os "espíritas" - , que em 1957 teve a participação de Humberto de Campos Filho como espectador e convidado, pode ter sido um grave exemplo de assédio moral, através da modalidade de apelo religioso.

No fim da doutrinária, Chico foi abraçar Humberto e, usando um tom melífluo de fala, o envolveu emocionalmente, fazendo-o chorar. Depois fez um falsete que deixou a vítima desnorteada, pensando ser a voz do pai, seduzido pela técnica de manipulação mental através do modo mais perigoso de Argumentum Ad Passiones, o "bombardeio de amor".

Considerado uma novidade em termos de estudos sobre a falácia discursiva, o "bombardeio de amor" é confundido por muitos brasileiros como uma forma saudável de acolhimento das pessoas, pelo aparente tom íntimo e generoso que tal apelo emocional traz, causando sensações de conforto, agrado profundo e alegria.

Mas especialistas em análise de discurso e de manipulação da mente afirmam que o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing), é um dos mais perigosos tipos de Ad Passiones, tipo de argumentação já considerado falacioso.

O "bombardeio de amor" é uma espécie de mancenilheira emotiva, uma referência à árvore mancenilheira, considerada muito bonita e de frutos deliciosos, mas altamente venenosa em toda sua estrutura, sejam as folhas, o tronco, a seiva e as frutas, trazendo efeitos mortais no organismo.

A atuação de Chico Xavier - que completou a técnica de convencimento sobre Humberto Filho com uma amostra de atividades de Assistencialismo - apresenta caraterísticas de assédio moral, como se estivesse dizendo para aquele que iria processá-lo: "Me aceite que eu sou bonzinho".

Isso é extremamente grave, e faz manchar o "espiritismo" brasileiro como um todo, porque usar o "amor" e a "caridade" como pretextos para se aceitar ações desonestas ou oportunistas é muito mais grave do que tais desonestidades e oportunismos em si, porque são meios de forçar a aceitação pública e estimular a credulidade, o deslumbramento cego e o fanatismo.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Arrivismo: uma receita de sucesso?



O Brasil tem um hábito estranho. É a teimosia de aventureiros de qualquer causa se projetarem através de uma trajetória cheia de graves erros, impasses e encrencas, e depois de conquistar o que queriam, passam a bancar os "certinhos", menos por aprenderem as lições do que por saberem o que fazer para levar vantagem.

Há muitos exemplos nesse sentido, o que faz com que uma parcela de pessoas, de uma forma associadas a valores retrógrados, se aventurem em alguma causa considerada de vanguarda, buscando obter visibilidade, causar impressão e obter privilégios, além de evitar ser tragado por alguma decadência que tornasse os valores retrógrados originais obsoletos.

Esse é um tipo muito comum do que se considera ser o arrivismo, um método de ascensão social movido pelas conveniências e pelas ambições, nem sempre por métodos ou posturas corretos. É um tipo de aventureiro social que busca atingir uma meta da qual não se identifica necessariamente, mas da qual depende de um vínculo permanente para obter vantagens pessoais.

Isso não deve ser confundido com as mudanças eventuais que pessoas que antes defenderam valores ultrapassados adotam ao perceber que os valores mais avançados valem mais a pena. Mas o contexto pode discernir as pessoas que, originalmente defensoras de valores ultrapassados, mudam por verdadeiro aprendizado e outras que apenas embarcam em valores avançados para obter visibilidade e prestígio social.

No entanto, num Brasil marcado pelas acrobacias retóricas que fazem com que até direitistas se apropriando de causas de esquerda se esforcem para parecer "esquerdistas exemplares", e fazem muitos machistas violentos conseguirem conquistar novas namoradas surpreendentemente inteligentes, emancipadas e feministas, os arrivistas sempre vestem a capa daqueles que "aprenderam novos valores e mudaram de verdade".

Quantas atitudes hipócritas, que deixam passar algum posicionamento mais retrógrado, surgem de repente, fazendo o arrivista se arrepiar diante de uma ameaça de encrenca, pondo sua causa oportunista a perder. Quantos impulsos do caronista vindo da retaguarda aos "excessos" dos vanguardistas são dados, criando sérios problemas que, com muito custo, o arrivista tenta abafar e passar por cima.

O Brasil é um país em que o penetra luta para ser o convidado vip de uma festa. O país tem o vício de sempre negociar novidades com forças velhas, não tem uma tradição de romper com valores obsoletos, preferindo condicionar valores novos sempre ao agrado de forças retrógradas que querem permanecer no poder, com uma parcela delas se apropriando e buscando um vínculo tendencioso com o novo.

O arrivista tenta parecer flexível, volúvel, como um canastrão circunstancial. O canastrão é um incompetente que finge que quer aprender tudo, se dizendo pronto para qualquer aventura. E o arrivista é uma espécie de "canastrão de vanguarda", aquele que fura a fila da realidade para se aventurar numa causa em que não se identifica mas na qual deseja ter vínculo permanente por pura vantagem.

O Espiritismo foi vítima desse vício brasileiro. E criou arrivistas como Francisco Cândido Xavier, um católico ortodoxo que passou a ser, de maneira bem arrivista, um suposto guia da doutrina originária da França.

Retrógrado e ultraconservador, Chico Xavier foi o maior arrivista do Brasil, ele mesmo criando confusões, agindo errado, às vezes por influência de outrem, mas não raro sob decisão e vontade próprias, com a exata consciência de seus atos.

Ele deturpou a Doutrina Espírita de forma gravíssima, com efeitos devastadores e danosos, emporcalhando o legado espírita original e desqualificando o trabalho árduo que, no passado, foi feito por Allan Kardec. Foi algo feito, sim, com muito propósito, e não pode ser visto como acidente, porque foi feito para um público muito grande e durante muitos anos e através de muitas obras.

A deturpação do Espiritismo por Chico Xavier e seguidores, dos quais se destaca Divaldo Franco, não pode, de forma alguma, ser considerada "um errinho de nada" ou um efeito acidental de incompreensão. Se fosse realmente uma mera incompreensão, porque essa "incompreensão" foi mantida durante muito tempo e espalhada para multidões através de um grande acervo de obras?

Os dois "médiuns" já haviam sido alertados da deturpação há muito tempo. Eles mesmos "catolicizaram" o Espiritismo com muito propósito e consciência plena de seus atos. Se tivessem cometido um acidente de incompreensão, não teriam lançado tantas obras, por muito tempo e com grande repercussão, com conteúdo abertamente igrejista e moralista conservador.

Mas, como arrivistas, os "médiuns" também tentaram dissimular - o arrivista é alguém que costuma dissimular muito suas posturas, até para ocultar aspectos retrógrados de sua personalidade e seus pontos de vista - e eles tentaram expor, na aparência discursiva, a correta teoria kardeciana, como se quisessem "provar" que "aprenderam a lição".

A complacência social acaba cedendo e danoso é aquele vanguardista que dá ouvidos a um arrivista, dando-lhe visibilidade às custas de um figurão mais moderno e avançado. O "espiritismo" brasileiro, mesmo com conteúdo medieval, igrejista, mistificador, mitificador e cheio de devaneios religiosos retrógrados, conseguiu, de arrivismo em arrivismo, passar uma falsa imagem de "progressista", "científico", "racional" e "moderno", aliciando os mais modernos setores da sociedade civil.

Isso é muito ruim, porque o arrivista, num dado momento, acaba sempre freando e evitando as transformações sociais necessárias, minimizando seus efeitos e mantendo intatas as estruturas de poder vigentes. Mesmo que personalidades retrógradas possam ir à ruína, a ação de arrivistas minimiza esses danos, na medida em que permite que aventureiros das novas causas sempre apareçam para levar vantagem e fingir solidariedade ao "novo".

E é isso que, no caso do "espiritismo", cria a doce ilusão de que os próprios deturpadores atuarão na recuperação das bases doutrinárias espíritas originais. A promessa de "aprender a lição" volta à tona, diante da profunda crise vivida pelo "movimento espírita", e existem até arrivistas que forçam a barra, apelando, da boca para fora, para "não só aprender Kardec, mas viver Kardec no dia a dia!".

Sim, existem demagogos que forçam a barra em simular uma postura "plena" da causa que não se identificam. Quantos "espíritas" falam mal da "vaticanização" que eles mesmos praticam, com muito entusiasmo! Quantos deturpadores falam em "viver Kardec", e que, com sua dramaticidade oratória, muitas vezes pomposa mas em outras "mais simples", evocam aquilo que nem se dispõem a fazer, que é a recuperação das bases espíritas originais.

É sempre a mesma desculpa da raposa prometer reconstruir o galinheiro. E quantas raposas se fazem de moradoras do galinheiro, como se já tivessem nascido galinhas! Esse é o problema do arrivismo que sempre brecou as transformações sociais, mantendo o Brasil num atraso social que não só tem dificuldades de ser mantido como ameaça retroceder cancelando os poucos avanços sociais conquistados ao longo dos tempos.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A imagem "higienista" da mulher solteira no Brasil


Algo está muito estranho na divulgação da imagem da mulher solteira pela mídia. Uma imagem forçadamente hedonista, espetacularizada, e que se volta, praticamente, para apenas um lado da pirâmide social, o lado de baixo, nas classes populares, através de uma suposta liberdade difundida pelo mercado do entretenimento.

Recentemente, as rádios estão tocando "Tô Solteira de Novo", continuação de um antigo sucesso da funkeira Valesca Popozuda, "Agora Eu Tô Solteira", um estranho hino de solteirice que, sabemos, não cabe na vida das solteiras comuns, e é mais um exemplo de como a mídia trabalha uma imagem caricatural e espetacularizada da mulher solteira.

As pessoas deveriam parar para pensar e perguntar se uma solteira de verdade se preocuparia em ostentar este estado civil. A coisa é praticamente exclusiva no Brasil, mas não existe só no "funk", mas também no "sertanejo", onde existe o suposto empoderamento do "feminejo", com letras supostamente anti-machistas.

A imagem da solteira trabalhada por esses sucessos do entretenimento popular é tão caricata, voltada ao narcisismo, à curtição e à hipersexualização, que internautas com senso crítico muito afiado ficam perguntando se essas cantoras são realmente solteiras ou estão criando tipo para vender sensualidade.

Observa-se, também, que a imagem da mulher solteira só se dirige às classes populares, havendo um contraste entre as famosas que ficam solteiras com mais facilidade e outras que investem em casamentos estáveis, criando um duplo condicionamento do feminismo brasileiro aos valores machistas dominantes no Brasil onde feminicidas"nunca morrem".

ACORDO MACHISTA

Feminismo, no Brasil, tem que estabelecer um acordo com a ideologia machista, de forma que as conquistas da mulher brasileira sejam minimizadas, ou, quando muito, controladas pela figura masculina.

Observa-se um duplo acordo. Num deles, a mulher que não quer fazer o papel de objeto sexual e quer buscar experiências de vida que não dependam de apelos sensuais ou sexistas esteja sempre associada à figura de um marido ou namorado, geralmente um empresário ou um profissional liberal (médico, advogado, economista).

A mulher que quer "fugir" de sua imagem sexualizada, só se sensualizando conforme o contexto, mas podendo se desvincular dessa imagem a maior parte do tempo, transmitindo ideias e valores culturais mais relevantes, precisa ser "vigiada" pela figura do marido, geralmente um sisudo homem associado a um cargo de liderança e sucesso econômico.

Por outro lado, a mulher que permanece em valores machistas, seja a pobre coitada que só vê novelas, ouve "pagode romântico" e brinca de ser "mãe" com seu pequeno afilhado, ou a siliconada de glúteos avantajados que apela para um sensualismo obsessivo que, mesmo em outros assuntos, há o vínculo forçado do sexo e da sensualidade, a solteirice é permitida e o vínculo à figura do marido ou do namorado é simplesmente dispensado.

Observemos quem são as mulheres que tendem a ser casadas e as que tendem a ser solteiras com maior facilidade. A disparidade de discursos e condições é aberrante e mostra o quanto a ideia de ser solteira é desigual, pendendo mais para as classes populares, enquanto que, nas classes média e alta a ideia é enfatizar a vida de casada e a formação de uma família tradicional (marido, mulher e filhos).

No grupo das casadas, predominam atrizes de TV que se tornam referência para um público feminino de classe média. Há também modelos de grifes, sobretudo "supermodelos". Há também jornalistas de TV, ex-VJs da MTV, influenciadoras digitais ligadas à moda e outras famosas de perfil mais intelectualizado ou próximo disso e sem um apelo sensual obsessivo.

Já no grupo das solteiras, predominam subcelebridades vindas de reality shows, cantoras de gêneros popularescos, modelos siliconadas de marcas de menor expressão, musas fitness de apelo popularesco, dançarinas de ritmos como "funk" e "pagodão" e "musas" de times de futebol. Embora parte delas se autoproclame "feminista", elas são patrocinadas por empresários machistas do entretenimento "popular" ou até por dirigentes esportivos.

Essas solteiras usam um discurso pronto, previamente estabelecido e não raro contraditório. Num momento dizem que são "solteiríssimas" ou "solteiras e felizes", dizendo que "não arrumam namorado por causa do foco no trabalho (?!)", noutro se dizem "carentes" e usam o bordão surrado de que "os homens fogem de medo". Não conseguem se decidir se estão felizes solteiras ou se estão à procura de um "príncipe encantado".

DESIGUALDADE SOCIAL

A imagem "higienista" que está por trás desse mercado de sensualismo obsessivo, abordado por uma imagem caricatural da mulher solteira, emerge como um problema sério por trás dessa distribuição desigual da mídia do entretenimento entre solteiras e casadas.

Nem precisamos destacar a realidade irônica desse processo. No âmbito popularesco, mulheres que mantinham casamentos estáveis se divorciam de repente, com muita facilidade, em favor da "sensualidade". Já entre as mulheres "de elite", famosas mantém casamentos estáveis, mas aparecem quase sempre sozinhas nos eventos, sugerindo "vida de solteira" patrocinada pelos respectivos maridos.

O que está em jogo nesta distribuição desigual é que o "sistema", no qual se executa uma indústria do entretenimento difundida pela grande mídia, conservadora e mercenária, estabelece um "controle social" por trás dessa imagem da mulher solteira restrita apenas ao chamado "povão".

Há um jogo ideológico por trás, no qual o entretenimento "popular" desestimula a mulher a formar família e ter filhos, ou, tendo algum, se separa e não contrai mais novo matrimônio. A ideia é desestimular a renovação de gerações nas populações de origem negra, índia ou mestiça, criando um discurso de "liberdade" que "desobriga" as jovens mulheres que consomem música popularesca a serem mães.

Mas a perversidade não pára por aí. A ideia de evitar que casais heterossexuais se formem, combinando referências masculinas e femininas para as crianças (que praticamente crescem sem o convívio diário da figura paterna), longe de ser uma questão de "liberdade sexual", é na verdade uma forma de evitar com que a formação de casais seja uma referência nas classes pobres, evitando a solidariedade popular a partir do lar.

A imagem do homem é bombardeada pela mídia popularesca de maneira bastante negativa: bêbado, infiel, criminoso, violento, malandro, insensível. Isso é difundido largamente pela mídia policialesca, mas é reforçada pelas músicas de conflitos amorosos que são bombardeadas pelas rádios por meio dos sucessos populares.

O mais grave disso é que homens de etnia negra, índia e mestiça são alvos dessa exploração negativa de imagem, inserindo um racismo sutil nas próprias comunidades, fazendo mulheres igualmente negras, índias e mestiças se envolverem amorosamente com homens afins.

Novidades como a causa LGBT são bombardeadas nas classes populares que, pela baixa escolaridade e pela manipulação midiática e religiosa, não conseguem compreender sua natureza. Amestradas pelo cativeiro midiático de rádios e TVs e educada ideologicamente por seitas evangélicas e sua mídia associada (a Rede Record é a principal delas), as classes pobres não conseguem entender a causa LGBT que lhes chega de maneira exótica e espetacularizada.

O grande problema é que a união de pessoas do mesmo sexo, uma realidade melhor assimilada pelas classes médias, digerida de maneira confusa pelas classes populares, revela seu caráter "higiênico", porque é um amor que não gera filhos biológicos, "congelando" assim o crescimento populacional das classes pobres, não com o objetivo de evitar a superpopulação, mas antes fazer desaparecer, gradualmente, populações de origem negra e índia ou mestiças.

Isso é que está em jogo quando, nas classes mais abastadas, se estimula o casamento, até mesmo por conveniência, revelando, por outro lado, casais sem afinidade cujas esposas reclamam dos defeitos de seus maridos sisudos. Casais afins são desencorajados nas classes populares, mas, nas classes abastadas, há até o ato de "carregar casamento", desestimulando os divórcios de casais divergentes.

Diante disso, a desigual distribuição de solteiras e casadas no Brasil, uma realidade aberrante, pois, no Primeiro Mundo, isso não existe - as solteiras da Europa, por exemplo, se assemelham em perfil às casadas intelectualizadas do Brasil - e nem as solteiras dos países mais evoluídos ficam preocupadas em ostentar sua solteirice.

Lá fora, uma vez tornada solteira, a mulher toca a vida para a frente e busca novos campos de interesse, como História, Artes Plásticas, Viagens etc. Embora de vez em quando se sinta estimulada a se sensualizar, exibindo um decote no vestido durante os eventos sociais, a solteira do Primeiro Mundo não se preocupa o tempo todo em exibir uma imagem hipersexualizada.

A imagem caricatural da solteira brasileira esconde também preconceitos sociais, porque a abordagem hipersexualizada envergonha as mulheres mais abastadas. Também envolve preconceitos sociais, uma vez que a imagem da mulher solteira está associada a um lazer obsessivo e à busca do estereótipo de objeto sexual que intimida as mulheres realmente emancipadas, não só do machismo, mas da hipersexualização.

Enquanto as mulheres das classes pobres veem na solteirice trabalhada pela mídia "popular" um pretenso ideal de liberdade, as mulheres mais abastadas e instruídas se sentem constrangidas com tais abordagens, se apressando em se casarem com os primeiros homens poderosos e influentes que encontrarem em restaurantes e casas noturnas chiques.

domingo, 17 de setembro de 2017

"Espiritismo" não pratica caridade, se promovendo com a caridade dos outros


Principal justificativa dos deturpadores do Espiritismo para continuarem prevalecendo e abafarem os efeitos drásticos de seus atos, a "caridade" é tida como a sua maior qualidade. No entanto, até ela pode ser uma farsa, se observarmos bem.

Sabe-se que a chamada "caridade espírita" consiste em mero Assistencialismo. Embora os "espíritas" definam sua aparente filantropia como "Assistência Social" (a caridade que provoca transformações sociais profundas e definitivas), o que se vê, todavia, na prática, é Assistencialismo, caridade paliativa, reduzida a aspectos pontuais e provisórios ou, se efetivos, bastante superficiais e medíocres, na qual o que mais está em jogo é o prestígio e a promoção pessoal do "benfeitor".

Mas, não bastasse essa "caridade" ser mero Assistencialismo, gerando mais holofotes para os "espíritas" do que transformações sociais para os mais necessitados, na verdade essa "caridade" não é praticada pelas instituições "espíritas", mas pelos fiéis, frequentadores das "casas espíritas".

Sim, isso mesmo, o que rende acaloradas discussões nas redes sociais, sobretudo sobre "médiuns" que vivem do culto à personalidade - apesar de se autoproclamarem "símbolos máximos da humildade humana" - , não passa de uma grande perda de tempo.

Além de deturparem o Espiritismo, difundindo, em nome de Allan Kardec, ideias contrárias a seus ensinamentos, os "médiuns" são famosos por uma caridade que não praticam. Eles apenas se promovem com a caridade dos outros: médicos, professores, cozinheiros, ou donativos enviados por terceiros.

Os "médiuns" apenas se ostentam, a exemplo dos donos de agências de publicidade que não criam as próprias campanhas, mas se consideram "autores" das campanhas que empregados e outros subordinados fazem, ficando sempre com os louros dos trabalhos dos outros.

Os "médiuns" e outros palestrantes "espíritas" fazem turnês por todo o país, em certos casos pelo mundo afora, acumulando tesouros terrenos como medalhas e condecorações, vendendo livrinhos marcados por um aparato de belas palavras repleto de devaneios igrejistas e moralistas, e muitos acreditam que esses palavreadores do "movimento espírita" são símbolos máximos de caridade. Falam até em "vidas totalmente dedicadas ao amor ao próximo", o que é uma grande falácia.

O que ocorre é que o cidadão em comum é que doa seus objetos e os voluntários aderem ao trabalho mal remunerado (isso quando há alguma remuneração), se doando para alimentar a vaidade pessoal do figurão "espírita", que quase sempre está no exterior fazendo discursos para ricos e poderosos, em troca de prêmios por uma suposta caridade e pelo balé de palavrinhas enfeitadas.

Isso é muito grave, porque os ídolos do "movimento espírita" produzem uma retórica na qual eles estão associados a uma imagem de "filantropos" que fascina muita gente e cria legiões de defensores fanáticos, capazes de se envolverem em bate-bocas nas redes sociais, na defesa desesperada de seus ídolos religiosos, pouco se importando se os mais necessitados estão sofrendo ou não ou se os mantimentos doados no mês passado já se esgotaram, voltando a miséria de antes.

A coisa chega ao nível deplorável, porque os "médiuns" causaram uma série de deturpações da Doutrina Espírita, consistindo numa grave traição ao trabalho árduo e penoso que Allan Kardec desenvolveu em seu tempo.

Os "médiuns", além da traição doutrinária (algo que não é acidental, pois feito durante anos, para um grande público e em grande projeção) rompem com sua função intermediária, atraindo para si o culto à personalidade. Viram "grifes" para supostas ações mediúnicas, em muitos casos bancando os "donos" de determinadas personalidades mortas.

Não bastasse isso, a tão festejada "caridade" que está tão associada a essas "criaturas tão puras" é, na verdade, uma ação de terceiros, em muitos casos não vindo de um centavo sequer dos bolsos dos "pensadores espíritas", que, pelo contrário, ainda são pagos por empresas e por parte do dinheiro da caridade para fazer turnês e ficar fazendo belas verborragias para ricos e poderosos em estabelecimentos nobres e hotéis de luxo no Brasil e no exterior.

Ver que essa "caridade" é o maior motivo desses deturpadores é preocupante. A reputação deles acaba se alimentando com essa farsa, fazendo com que os questionamentos fossem abafados em tudo. Até as "mediunidades" fake são aceitas porque seus "médiuns" são "caridosos", pouco importando se a suposta mensagem espiritual foge drasticamente do estilo pessoal do morto em questão.

Precisamos questionar até mesmo essa "caridade". As pessoas ainda pensam a "bondade" como se estivessem pensando a vida como se fosse um conto de fadas ou uma novela da Rede Globo. Ignoram o quanto há autopromoção e arrivismo entre os deturpadores da Doutrina Espírita, que usam de todos os artifícios para se tornarem unanimidade mesmo nas suas piores irregularidades. As pessoas levam gato por lebre e não percebem.

sábado, 16 de setembro de 2017

Criticar a deturpação espírita não é expressar intolerância religiosa

SE DEPENDER DOS "ESPÍRITAS" BRASILEIROS, BOA PARTE DO CONTEÚDO DE O LIVRO DOS MÉDIUNS EXPRESSA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA A ELES.

Estão surgindo casos de intolerância religiosa no Brasil e eles estão sendo muito mal interpretados por uma imprensa incompetente, conservadora e desinformadora e deformadora da opinião pública. Com base numa "constelação" de grandes grupos midiáticos (Globo, Abril, Folha etc) e seus "satélites" que são as páginas de fake news, as pessoas levam gato por lebre e não entendem coisa com coisa com o que passa realmente.

Os episódios que ocorrem no Brasil, na verdade, são episódios de intolerância religiosa, sim, mas sob motivação social elitista e dotada de racismo, movidos por grupos neopentecostais contra crenças religiosas afro-brasileiras e é um reflexo, na verdade, de uma luta de classes agravada depois que a sociedade mais reacionária retomou o poder, com a derrubada do governo Dilma Rousseff.

O "movimento espírita" tenta se aproveitar da situação e, mediante sua grave crise, pegar carona nos movimentos religiosos afro-brasileiros e tomar como seu o infortúnio deles. Isso é bastante insólito e tendencioso, porque o "movimento espírita" sempre se preocupou em não ser confundido com os movimentos como a umbanda e o candomblé, tidos pelos leigos como "espíritas".

Hoje até parece que o "movimento espírita" passou a gostar desta confusão e vários de seus palestrantes estão espalhando por aí que a onda de intolerância religiosa atinge os "espíritas" e ficam dizendo que as críticas severas que recebem na Internet são "manifestos de intolerância, de falta de perdão e perda da fé em Deus", na esperança de deixar o contraditório "espíritismo" brasileiro como está, na "fase dúbia" da bajulação de Allan Kardec e da apreciação de ideias roustanguistas.

O que se tem é intolerância à mentira, à falta de lógica, à contradição e à dissimulação. O conteúdo dos "espíritas" diz muito desses gravíssimos defeitos, difundidos sobretudo pelos "médiuns" que vivem do culto à personalidade e se promovem pelo Assistencialismo (que dizem ser "assistência social"). Através deles, o legado de Kardec foi rebaixado a um "outro Catolicismo", que de tão influenciado pelo jesuitismo, reduziu o "espiritismo" a uma religião medieval.

As críticas severas e bastante enérgicas que o "espiritismo" recebe se baseiam no conteúdo nem sempre agradável da seminal obra O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. A obra não é um doce a ser dissolvido pelos paladares igrejistas dos "espíritas" brasileiros - tanto que Francisco Cândido Xavier se apressou a lançar uma obra mais de acordo com os devaneios igrejistas, intitulada Nos Domínios da Mediunidade - e mostra pontos que desagradam os "espíritas" brasileiros.

Em muitos trechos, identificam-se caraterísticas negativas que se encaixam nas atividades e nos pontos de vista lançados pelos badalados "médiuns" brasileiros, alvo de muita blindagem por parte da grande mídia, como um PSDB da religiosidade. Textos rebuscados, ideias excêntricas à Doutrina Espírita (como os devaneios igrejistas), uso de nomes ilustres em supostas psicografias, tudo isso já havia sido alertado por Kardec como aspectos negativos da deturpação do Espiritismo.

Lendo esse livro - evita-se traduções igrejeiras como as da FEB e IDE e se prefere a de José Herculano Pires, editada pela LAKE, por ser mais honesta com o texto original - , observa-se quantos subsídios a obra de Allan Kardec oferece para apontar os gravíssimos e preocupantes defeitos da deturpação brasileira, coisa que não é algo para esquecer como errinhos de nada, porque eles envolvem responsabilidades, compromissos e riscos nunca devidamente assumidos.

Para quem está acostumado pela imagem adocicada dos "médiuns" brasileiros, promovidos como se fossem fadas-madrinhas da vida real, ler O Livro dos Médiuns é de partir o coração. Sim, porque o conteúdo se refere, direta ou indiretamente, a tudo que representa o "espiritismo" brasileiro, não de maneira elogiosa mas com críticas bastante severas, apoiadas por argumentos seguros e certeiros.

Será que os "espíritas" brasileiros acusarão Allan Kardec ou espíritos mensageiros como São Luís e Erasto de praticarem "intolerância religiosa"? Será que eles serão acusados, da mesma forma, de "falta de misericórdia"? Por outro lado, o "trabalho do bem" pode ser considerado com obras mediúnicas fake de livros e quadros de pintura?

O "espiritismo", infelizmente, sempre se aproveitou da desinformação da maioria das pessoas para levar vantagem até mesmo em suas piores irregularidades. E criticar isso não é expressar intolerância religiosa, mas intolerância à mentira, à fraude, à mistificação e à dissimulação.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Mensagem "espiritual" atribuída a Allan Kardec dá indícios de obra 'fake'


É muito pouco provável que o professor Leon Rivail, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec, tenha deixado mensagens espirituais. As mensagens que foram divulgadas atribuindo-se a ele soam muito igrejeiras, e, no caso brasileiro, bastante grotescas, sendo a mais famosa, por Frederico Júnior, lançada em 1889, mostrando um suposto Kardec que pedia para valorizarmos a "revelação da revelação" (nome dado à causa do deturpador J. B. Roustaing).

O que se pode inferir, com base na personalidade rigorosamente criteriosa e objetiva de Kardec, é que ele não teria retornado à Terra nem enviado mensagens espirituais. Mesmo deixando seu trabalho incompleto, Kardec teve consciência, na fragilidade de sua doença, de ter deixado uma orientação suficiente para a humanidade apreciar sua teoria e suas ideias.

A mensagem que reproduzimos abaixo é uma "pegadinha". Ela foi publicada na França, destinada à Revista Espírita e publicada nos Anais do Espiritismo daquele país. Isso sugere que a mensagem atribuída a Allan Kardec é "autêntica" e "indiscutível", mas indícios de que a mensagem tem veracidade duvidosa, embora sutis, podem ser identificados.

O texto, no seu conteúdo, apresenta um Kardec estranho, que se proclama um "missionário" e não um professor e muito menos lembra o Kardec original que lançava ideias com o objetivo de estabelecer um debate e mesmo um questionamento, a ponto de dizer que, se a Ciência provar logicamente o equívoco de uma ideia lançada pelo Espiritismo, que se prefira a Ciência do que a Doutrina Espírita.

No texto abaixo, embora o suposto Kardec fale em "ciência", o texto soa bastante igrejeiro. Ele transforma a "ciência espírita" numa religião e Kardec, estranhamente, trata a si mesmo como se fosse um "missionário". Isso parece bonito para as pessoas, mas contraria a natureza pessoal de Kardec, que nunca se comportou como se fosse um militante religioso.

As alegações do suposto Kardec soam místicas e o Espiritismo é visto como uma religião, e o texto triunfalista foge da natureza kardeciana original, embora, sendo uma mensagem veiculada na França e não no Brasil (onde supostas mensagens espirituais não escondem seu caráter fraudulento), pareça um sutil arremedo das mensagens que Kardec veiculou em obras finais como A Gênese e a coletânea Obras Póstumas.

Embora pareça estranho para os leigos, a Revista Espírita (La Revue Spirite), periódico fundado por Kardec, escapou dos propósitos originais do pedagogo de Lyon. O Espiritismo original também foi deturpado na França, a partir de J. B. Roustaing, mas mesmo os seguidores de Kardec suavizaram seu legado ao sabor de crenças católicas, o que comprometeu a essência original da Doutrina Espírita.

Isso significa que mesmo o Espiritismo francês se deixou diluir ao sabor do Catolicismo, não com a voracidade que se observa no Brasil, mas de maneira decisiva, tanto que, no decorrer dos tempos, deturpadores como Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, teriam livros traduzidos para o francês.

Vamos ao texto da mensagem do suposto espírito de Kardec.

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Comunicação de Allan Kardec em 30 de Março de 1924, confiada à - "La Revue Spirite" - pelos Anais do Espiritismo de Rocheford-Sur-Mer (França). N. º de julho de 1924.

"Outrora os espíritas podiam ser contados nos dedos. Escarneciam e praguejavam contra aqueles que se interessavam por essa Ciência; esses tais eram tidos por malucos e evitados com cautela; mas, hoje, vai-se fazendo luz intensa sobre o Espiritismo, porque os sábios o explicam e procuram a realidade dos fatos. Eu não disse na minha vida terrestre, que o Espiritismo havia de ser cientifico ou morreria?

E a ciência vai pouco a pouco homologando os fenômenos espíritas.

Para muita gente, nós o sabemos, esses fenômenos continuam ainda incompreensíveis, porque não se pode explicar e analisar a força que os produz, mas dia virá em que os sábios à descobrirão e provarão que, se a matéria compõe nosso corpo, existe também no ser humano uma coisa mais sutil que anima esse corpo: a alma imortal!

Com grande alegria vejo um raio luminoso aclarando alguns sábios que tendo a princípio repelido os fatos com desdém, observando-os depois com atenção, vão reconhecendo a sua realidade.

Direi, portanto, aos que ainda não compreendem o Espiritismo: estudai, observai, mas não o aceiteis senão com a vossa razão e com a ciência; é por atenção acurada na observação dos fenômenos que chega a concluir: Cela est! ("É isso!", em francês - o tradutor manteve a expressão original)

Aqueles que nos fatos espíritas só vêm ilusão e crendices da parte dos médiuns que nós animamos, estão em erro, podem também estar de má fé.

Se há médiuns mais preocupados de seus interesses que da verdade, também os há, e em maior número, que são sinceros e desinteressados e são na realidade uma força psíquica poderosa, capaz de ajudar os Espíritos a produzir fenômenos; esses são para nós preciosos auxiliares que nos permitirão atingir o triunfo de nossa obra de Luz.

Que Deus abençoe esse trabalho dos Espíritos, que vai crescendo de dia para dia neste planeta, para maior bem da humanidade. Quanto a mim, a minha missão espiritual está cumprida em parte, e dentro de alguns anos tornarei a reencarnar-me entre vós, amigos; e muitas pessoas jovens, que aqui se acham presentes, poderão reconhecer-me então pela minha obra de Espiritismo.

Essa missão terrestre eu a aceitarei com jubilo por amor de meus irmãos da Terra; e para bem a desempenhar meu espírito está se instruindo, está se iluminando nestas maravilhas estupendas e sem limites, onde há tanto que observar.

Eu estou aí haurindo poderosas forças espirituais para voltar ao serviço do progresso da humanidade terrestre, para afirmar a meus irmãos a realidade e a beleza desta vida do espírito no Espaço.

Sim, eu voltarei para trabalhar neste planeta onde lutei e sofri, mas estarei com o espírito mais forte, mais generoso, mais elevado, para aí fazer reinar mais fraternidade, mais justiça, mais paz".
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