quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

As pessoas não estranham o mel das palavras de certos oradores


Ninguém estranha quando alguns oradores, como Divaldo Franco, adotam uma linguagem por demais melíflua, açucarada demais para as condições normais da natureza humana. Não se trata de uma voz de alguém evoluído, até porque são apenas aparatos materiais de palavras enfeitadas, que mais sugerem mistificação do que sabedoria e fazem o orador se autopromover com teorizações excessivas e desnecessárias sobre temas como paz e fraternidade.

Numa sociedade conflituosa em que vivemos, ideias pacifistas não podem se tornar prisioneiras de todo um ritual de palavras bonitinhas. Em muitos casos, falar demais sobre paz pode irritar as pessoas, e o excesso de teoria só se torna admissível numa sociedade marcada pelo deslumbramento religioso, da adoração aos pregadores da fé religiosa e de uma certa preguiça de ação da maioria das pessoas.

Há aspectos estranhos, sim. Parece cruel dizer isso, mas não é. Há mercadores das palavras que buscam as glórias da Terra através de uma carreira em que a voz tem sabor de mel e a escrita, perfume de flores. Quantas ambições não estão por trás desse aparato de "lindas mensagens", quantas promoções pessoais não estão por trás dessa diabetes de ideias, que se tornam entretenimentos de acomodação e anestesia social, mais do que convites para a ação e transformação?

Divaldo Franco é o maior deturpador vivo do Espiritismo. Ajudou a rebaixar o legado kardeciano a um sub-Catolicismo medieval. Suas aparentes virtudes, a "caridade" e a "oratória", já foram vistas com muita desconfiança por ninguém menos que José Herculano Pires, renomado estudioso espírita. Seus ocmentários sobre o anti-médium baiano, publicados em uma carta, não devem ser subestimados:

"Do pouco que lhe revelei acima você deve notar que nada sobrou do médium que se possa aproveitar: conduta negativa como orador, com fingimento e comercialização da palavra, abrindo perigoso precedente em nosso movimento ingênuo e desprevenido; conduta mediúnica perigosa, reduzindo a psicografia a pastiche e plágio – e reduzindo a mediunidade a campo de fraudes e interferências (caso Nancy); conduta condenável no terreno da caridade, transformando-a em disfarce para a sustentação das posições anteriores, meio de defesa para a sua carreira sombria no meio espírita".

Pesquisamos o que é o "caso Nancy" e vemos que Herculano Pires se refere a Nancy Ann Tappe, criadora da farsa das "crianças-índigo", juntamente com o ex-casal Lee Carroll e Jan Tober, um modismo esotérico que se tornou a "bandeira" adotada pelo "médium" baiano para descrever a "evolução planetária" e conduzir a "herança" de seu amigo mineiro Francisco Cândido Xavier a respeito de outra farsa, "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", uma patriotada religiosa.

As pessoas se deixam serem dominadas por oratórias com sabor de mel. Se deixam levar pelos apelos emocionais associados aos "médiuns" deturpadores do Espiritismo, que nunca possuíram a função intermediária e discreta dos verdadeiros médiuns.

Para aumentar ainda mais o aspecto vergonhoso, os médiuns do tempo da Codificação eram, apesar de aristocráticos, pessoas bem mais discretas e humildes que os "médiuns" brasileiros, que vivem da ostentação, da falsa modéstia e do culto à personalidade.

Quanta hipocrisia ver Divaldo Franco falando mal do culto à personalidade e das paixões religiosas, se esses dois processos se voltam tranquilamente à sua pessoa, através do entretenimento da "paz" muito falada e muito menos praticada.

ENTRETENIMENTO QUE PODE GERAR EFEITOS CONTRÁRIOS

O malabarismo discursivo apela para a prática constante da paz, mas é somente o "fazer falar". Tudo vira uma questão de retórica: o embelezamento das palavras e o desnecessário excesso de teorização da paz, através de conceitos abstratos que dão uma retórica aparentemente linda e empolgante, mas que se perde no vazio das palestras igrejeiras que produzem o divertimento viciado das palavras bonitas.

O grande problema que isso trás é que a realidade comprova que paz não se teoriza demais, não há a menor necessidade de investir num excesso de palavras porque a resolução de conflitos não passa pelo turbilhão de oratórias.

Em muitos casos, a excessiva exposição de "mensagens" sobre a paz, além de indicar forte grau de pieguice - que é o sentimentalismo excessivo e enjoado - , pode trazer irritação para pessoas que vivem com algum conflito ou tensão mental, podendo trazer efeitos contrários e fortalecer o ódio e o aborrecimento de muitas pessoas.

Do lado daqueles que gostam desse tipo de oratória, há outro efeito negativo, que, no entanto, parece à primeira vista preservar as boas emoções e os belos sentimentos. Mas, nesse caso, ocorre uma espécie de anestesia social, onde as palavras funcionam como água com açúcar, criando uma espécie de "diabetes mental", que é o transe e a sensação analgésica de aparente conforto emocional, algo que no entanto parece narcótico e movido mais pelo deslumbramento religioso do que pelo senso de altruísmo e serenidade.

Falar sobre a "paz" acaba se tornando um mero divertimento sem muito efeito prático. E cria falsas sensações de que "algo está funcionando". Mas se realmente isso funcionasse, o Brasil não teria vivido esse clima de ódio que hoje vemos. E vendo que a retórica melíflua sobre a "paz" vem de um deturpador do Espiritismo, de alguém que traiu severamente o legado espírita original, isso deve ser visto com muita estranheza e desconfiança.

Afinal, trata-se de uma "paz" anestesiante, mistificadora e dopante. Uma "paz sem voz" que depende da "superioridade" do orador em questão, que com seu malabarismo de palavras se impõe como um pretenso sábio e alegado possuidor da verdade.

Isso não está de acordo com a natureza normal da vida humana, onde os verdadeiros sábios não têm mel na boca e não falam necessariamente de forma suave, e muito menos têm a pretensão de dizer a verdade absoluta ou de trazer respostas para tudo.

Os verdadeiros sábios estão muito longe de terem como símbolo um mistificador como Divaldo, que está mais próximo dos antigos sacerdotes reprovados por Jesus de Nazaré, que muito energicamente alertava contra os manipuladores da palavra e mistificadores de oratórias de palavras enfeitadas e postura extravagante feitas para dominar o público e exercer influência total sobre ele. Portanto, tem razão Herculano quando alertou sobre a "conduta negativa" de Divaldo como orador.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

"Guru dos coxinhas" e farsante, Sri Prem Baba esteve no Você e a Paz

SRI PREM BABA E DIVALDO FRANCO, NO 3º VOCÊ E A PAZ EM SÃO PAULO.

No caso da "farinata" do João Dória Jr., um escândalo que só não foi maior porque a imprensa blindou o anti-médium baiano Divaldo Franco - mesmo a imprensa de esquerda, temos que deixar claro uma coisa: quando uma festa organizada por um anfitrião mostra alguma coisa errada, o anfitrião responde pelo ato, mesmo se foi praticado por terceiros.

Ao anfitrião de uma festa, se pergunta de que forma ele deixou que entrasse na festa algum suspeito, que interesses estão em jogo, se o anfitrião apoia o suspeito etc. A ocultação da responsabilidade de Divaldo Franco no escândalo da "farinata" do prefeito de São Paulo foi um silêncio que falou muito mais na complacência que a imprensa como um todo têm em relação aos "médiuns espíritas", mais blindados do que os mais blindados políticos do PSDB.

A lógica é essa. Divaldo Franco é o anfitrião do Você e a Paz. Ele inclui várias crenças místicas ou religiosas, mas o organizador do evento é ele. Ele é que fica com os louros, é o primeiro a ser entrevistado, é a pessoa que aparece nos anúncios publicitários do evento.

Até mesmo nas ocorrências infelizes que ocorrem durante o Você e a Paz, Divaldo Franco responde como anfitrião e responsável por apoiar ou, pelo menos, aceitar tudo isso de bandeja. Até agora Divaldo não processou Dória pelo uso do nome do "médium" para a "ração humana" e não é por ocorrências infelizes que o "médium" será visto como figurante porque ele responde por tudo o que ocorrer no evento. O Você e a Paz é de Divaldo, que responde até mesmo por ocorrências infelizes.

Todavia, foi constrangedora a cobertura da "farinata" do prefeito da capital paulista pela imprensa. A omissão do nome do evento e, sobretudo, de Divaldo, rompeu com a honestidade ou firmeza jornalística e, em nome de um festejado ídolo religioso, fez-se o possível para omiti-lo de qualquer responsabilidade. Ninguém quer abrir mão das verborrágicas oratórias com gosto de mel e "em nome da paz" que faz Divaldo divertir as massas.

SRI PREM BABA E DIVALDO FRANCO APERTANDO A MÃO - DIVALDO GOSTA MUITO DE ESOTERISMO.

Mas o que chama a atenção são outros aspectos. A sintonia de Divaldo com o "atual momento", homenageando Dória, apoiando a "farinata", sendo entrevistado pela imprensa reacionária, participando de congresso "espírita" promovido pela mesma PUC gaúcha que acolhe Sérgio Moro e outros plutocratas, tudo isso deve ser levado em conta pela mídia alternativa, que faz contraponto à mídia hegemônica. Deixem Globo, Band e Abril blindar os "médiuns espíritas" sozinhas!

Não dá para as esquerdas aceitarem os "médiuns espíritas" por causa das paisagens de cenário de Teletubbies que ilustram seus memes ou pelo açúcar das palavras e outros apelos emotivos. Ou pelo verniz de "caridade" cujos resultados sociais são muito inexpressivos. Há que se questionar os "médiuns espíritas" com o mesmo empenho com que se faz em relação aos pastores neopentecostais.

SRI PREM BABA EM BOA COMPANHIA - AÉCIO NEVES E JOÃO DÓRIA JR..

Um caso que chama a atenção é que Sri Prem Baba, o esotérico farsante que virou o guru midiático do momento, esteve no Você e a Paz. E, se ele esteve no evento, Divaldo o convidou, ou consentiu que o esotérico fosse convidado.

Sri Prem Baba é um daqueles farsantes esotéricos que prometem "proteção espiritual" a famosos. Como o Maharishi Yogi, farsante que os Beatles, na boa-fé, o escolheram como guru até ser desmascarado depois. E como tantos outros esotéricos que vieram na onda hippie, cujo legado negativo, além das drogas e da utopia da "nova era", estava a religiosidade híbrida de muito igrejismo e muito esoterismo.

O "espiritismo" brasileiro aproveitou muito esse triste legado hippie (cujo efeito negativo foi a ascensão da Família Manson, seita macabra de Charles Manson, falecido há pouco). Divaldo Franco alega que, através de "tele-transporte", recebeu em um hotel outro guru farsante, o ilusionista Sai Baba, que entretinha as massas com supostos rituais de materialização de objetos.

Mas, dentro do próprio "espiritismo", o "médium" goiano João Teixeira de Faria, o João de Deus, também banca o dublê de guru, recebendo famosos e se autopromovendo até mesmo com celebridades de esquerda, pois João de Deus é goiano (Goiás é reduto político de Marconi Perillo, do PSDB) e o próprio "médium" é um poderoso latifundiário, com faixas de terra surpreendentemente extensas para a dimensão de um Estado que foi até dividido (uma antiga parte de Goiás hoje é o Estado do Tocantins).

Mas João de Deus deixou a máscara cair e o "médium-fazendeiro", que havia sido celebrado como "amigo de Lula", manifestou claramente seu desejo de ver Sérgio Moro, o arqui-inimigo do petista, como presidente da República.

Sri Prem Baba tornou-se mais um esotérico acolhido por um "médium espírita". Ele é conhecido por ser o "guru dos coxinhas", oferecendo "assistência espiritual" para famosos que, em 2016, se comprometeram a lutar contra o governo Dilma Rousseff, convidando as elites brasileiras a se vestirem com a camiseta da CBG e gritarem "Fora Dilma".

Prem Baba também apareceu ao lado de João Dória Jr. e Aécio Neves, este um político mineiro conhecido pelo seu arrivismo e seu perfil bonapartista que encontraram afinidade mútua com o "médium" Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, o qual exercia com o tucano conterrâneo uma admiração mútua.

Prem Baba, na verdade, se chama Janderson Ferreira. Foi office-boy e cursou Psicologia. Virou o guru das elites conservadoras. Presta "orientação" e "proteção espiritual" aos empresários que fazem parte do movimento Renova BR, de preparação de políticos neoliberais, cujo um dos organizadores é Luciano Huck, cuja "caridade", mais espetacularizada que eficiente, é comparada com a do próprio Chico Xavier, também admirado pelo apresentador e possível presidenciável.

Como se vê, isso é mais um item para a coleção de incidentes nada progressistas que envolvem o "espiritismo" brasileiro, que não apoia o cenário político simbolizado por Michel Temer, tucanos, patos da FIESP e companhia por acidente.

Há afinidades de sintonia e de interesses e será necessário que a imprensa progressista inclua os "espíritas" na sua pauta de questionamentos, dando a ela o mesmo empenho contestatório que dá aos neopentecostais. Antes que a farsa do "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" se revele uma tirania teocrática, como foi no Catolicismo da Idade Média.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A verdade sobre as crianças-índigo


O texto que publicaremos é uma denúncia grave que os espíritas autênticos, postos à margem pelo "movimento espírita" original, descreveu sobre a farsa das "crianças-índigo" que, a julgar pelos fatos e pela forma com que os "espíritas" igrejeiros - ligados aos chamados "médiuns espíritas" como Chico Xavier e Divaldo Franco - veem as ocorrências no Brasil, parece se identificar com o perfil impetuoso de movimentos reacionários como o Movimento Brasil Livre.

A culpa não é nossa. Periódicos e palestrantes "espíritas" definiram as passeatas do "Fora Dilma" como "início da Regeneração" e, a julgar pelo que Divaldo Franco havia dito sobre as transformações da humanidade, somos obrigados, pelos fatos, a ver em figuras como Kim Kataguiri, Renan Santos, Rogério Chequer e Fernando Holiday, para não dizer Alexandre Frota, como as "crianças-índigo" sonhadas pelos "espíritas".

Deixamos então que o texto nos informe a respeito dessa ilusão das "crianças-índigo", lançada por Nancy Ann Tappe e, depois, por Lee Carroll e sua então esposa Jan Tober, que vemos uma discriminação contra pessoas de inteligência e iniciativa, jogadas no mesmo balaio de supostos rebeldes agressivos e reacionários. Uma gororoba que Divaldo Franco quis vender como "profecia de um Brasil melhor" e a complementou no projeto de "coração do mundo" sonhado pelo amigo Chico.

O texto apenas não menciona o nome de Divaldo, mas é explícita a sua participação na farsa, o que o desqualifica como espírita autêntico que muitos seguidores e tantos outros complacentes pensavam sobre ele, no seu wishful thinking de ver um deturpador "aprendendo as coisas" e tentando recuperar as bases doutrinárias. Vamos ao texto:

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Os obscuros conceitos de uma seita

Paulo Henrique Figueiredo - Casa Espírita Nova Era (Página em prol da fidelidade doutrinária espírita) - 09 de julho de 2007

As suspeitas levantadas sobre essa obra nos motivaram a investigar mais profundamente seus autores, a origem, as finalidades de sua publicação, e quem está divulgando seus conceitos no país em que surgiu, os Estados Unidos. O que encontramos é grave e é preciso esclarecer os fatos.     

Desde 2006, pesquisadores espíritas, como Rita Foelker, Dora Incontri, Heloísa Pires, e a Revista Universo Espírita vêm alertando para as inúmeras contradições entre a Doutrina Espírita e o best-seller Crianças Índigo, publicado nos Estados Unidos em 1999, e no Brasil em 2005.

Algumas das características das crianças índigo são alarmantes:

“Nascem, sentem-se e agem com realeza. (...) Conseguem inverter as situações, manipulando ao invés de serem manipulados, especialmente seus pais. (...) Não se relacionam bem com pessoa alguma que não seja igual a elas. (...) Alguns têm propensão ao vício, especialmente drogas durante a adolescência”.

Citada em Crianças Índigo como a primeira a supostamente reconhecer a aura azul dessas crianças, diz a vidente Nancy Ann Tappe:

“Todas as crianças que mataram colegas de escola ou os próprios pais, com as quais pude ter contato, eram índigos. Eles tinham uma visão clara de sua missão, mas algo entrou em seu caminho e elas quiseram se livrar do que imaginavam ser o obstáculo. Trata-se de um novo conceito de sobrevivência. Todos nós possuíamos esse tipo de pensamento macabro quando crianças, mas tínhamos medo de colocá- lo em prática. Já os índigos não têm esse tipo de medo”.

Esse é o novo conceito de sobrevivência das crianças índigo? Matar os pais e colegas de escola? O que isso tem a ver com o Espiritismo?

A pedra angular é a fraternidade

Os Espíritos da Codificação realmente anunciaram uma nova geração, mas nos seguintes termos: “Cabendo a eles fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma precoce inteligência e razão, juntas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, constituindo um sinal indiscutível de um adiantamento anterior”, explicaram em A Gênese.

Os Espíritos estão falando de progresso moral e de uma geração com o sentimento inato do bem. Isso pressupõe a habilidade de resolver conflitos, paciência, solidariedade e tolerância. Segundo o Espiritismo, “a fraternidade será a pedra angular da nova ordem social”. Já as crianças índigo descritas são revoltadas, agressivas e prepotentes. A chegada de uma nova geração anunciada na Doutrina Espírita nada tem a ver com o conceito de Crianças Índigo pertencente à seita estrangeira criada por Lee Carroll.

As suspeitas levantadas sobre essa obra nos motivaram a investigar mais profundamente seus autores, a origem, as finalidades de sua publicação, e quem está divulgando seus conceitos no país em que surgiu, os Estados Unidos. O que encontramos é grave e é preciso esclarecer os fatos.

O Grupo Iluminação Kryon

Um dos autores de Crianças Índigo é Lee Carroll, formado em Economia pela Universidade da Carolina do Norte. Durante 30 anos trabalhou em sua empresa de engenharia de som, em Del Mar, San Diego, onde vive até hoje.

O ano em que tudo começou foi1989, quando um sensitivo disse ter visto ao lado de Lee Carroll uma entidade extraterrestre que se identificou pelo nome “Kryon”.

Intrigado, Lee começou a “canalizar” (esse é o nome que ele dá para as psicografias) textos da entidade extraterrestre Kryon num grupo esotérico de sua cidade.

A co-autora do livro Crianças Índigo é a cantora Jan Tober, ex-mulher de Lee Carroll. Ela o ajudou a criar uma seita própria, o Grupo Iluminação Kryon, em 1991.

Durante 10 anos, as mensagens renderam a publicação de 12 livros, As edições, traduzidas para 23 línguas, venderam mais de um milhão de exemplares.

Os encontros do Grupo Iluminação Kryon, onde é possível consultar-se pessoalmente com Kryon por meio de Lee Carroll, reúnem platéias pagantes de 3 mil pessoas. Elas lotam caríssimos salões e teatros da Europa e Estados Unidos. Lá também são vendidos livros, filmes, souvenires e bijuterias. As mensagens do extraterrestre Kryon na internet recebem cerca de 20 mil visitas por dia.

Uma tese panteísta

Quem é esse ser que se diz extraterrestre e que revelou as crianças índigo?

O site oficial da seita dá sua versão: 

“Kryon é o mais evoluído ser de luz a que a Terra jamais teve acesso. Proveniente do ‘Sol Central’, com a função primordialmente técnica ligada ao ‘serviço eletromagnético’. Foi enviado por um grupo de ‘Mestres Extrafísicos’, chamado ‘A Irmandade’. Veio dessa vez para reordenar a ‘rede magnética planetária’, visando uma série de mudanças magnéticas no eixo da Terra, que se encerrará no ano de 2012”.

Em O Livro dos Espíritos, “Jesus foi o ser mais puro que já apareceu na Terra”.

Ainda há muito mais. De acordo com Kryon, Deus não existe. Ele propõe o panteísmo, ou seja, segundo ele, “todos os seres do Universo são parte de um todo e as individualidades são apenas ilusões”.

Esse pensamento panteísta se opõe claramente aos ensinamentos do Espiritismo. Basta ler a o seguinte diálogo em O Livro dos Espíritos: “Que pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da Natureza, todos os seres, todos os globos do Universo, seriam partes da Divindade e constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade; ou seja, que pensar da doutrina panteísta?”, perguntou Allan Kardec. E os Espíritos responderam: “Não podendo ser Deus, o homem quer pelo menos ser uma parte de Deus.”.

Quem são as crianças índigo

A doutrina do Grupo Iluminação Kryon vai ainda mais longe. Damos aqui apenas um resumo das palavras de Kryon:

“Os seres humanos que vivem na Terra eram anjos muito evoluídos que assinaram um contrato para vivenciar uma experiência humana no planeta Terra, motivo pelo qual seríamos honrados e celebrados em todo o Universo.”

De acordo com o “extraterrestre”, “a humanidade atingiu a ‘Convergência Harmônica’ necessária. Essa experiência é a de vivermos com um nível vibracional rebaixado para a terceira dimensão, sem as memórias ou lembranças de nossa origem divina”.

O que seria “Convergência Harmônica”? Nos livros psicografados por Lee Carroll, informações pseudocientíficas como essa estão por todo o texto, sem explicação alguma.

Segundo Kryon, desde 1987 estariam nascendo crianças com o DNA alterado, que seriam as tão comentadas “crianças índigo”. Há também referências às crianças cristal.

Todavia, de acordo com a Doutrina Espírita a moral é um atributo do Espírito e não do corpo. Nenhuma alteração do DNA transformaria moralmente indivíduo algum.

E quais as conseqüências dessa suposta mutação das crianças? Segundo o extraterrestre Kryon, “elas se tornarão uma nova raça que irá habitar uma galáxia que está sendo criada a 12 bilhões de anos-luz da Terra”. A astrofísica está bastante avançada e podemos afirmar que a idéia da criação tardia de uma galáxia não tem embasamento científico algum.

Mais uma vez, é Kardec quem alerta: “Toda heresia científica notória, todo princípio que choque o bom-senso, aponta a fraude, desde que o Espírito se dê por ser um Espírito esclarecido”, em O Livro dos Médiuns.

Idéias estranhas

As mensagens publicadas no site da seita criada por Lee Carroll falam do novo acontecimento programado, segundo ele, para 2012: “Celebremos o fim do teste! As estrelas são nossas. Agora é chegado o momento de uma parte da família ir para casa, precisamente em 2012. E ele, Kryon, estará lá quando chegarmos”.

Sobre questões como essa, disse Kardec: “Os bons Espíritos nunca determinam datas. A previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação”, em O Livro dos Médiuns.

Nos encontros do grupo, Kryon responde indagações do público que paga para ser atendido. Um adepto perguntou: “Querido Kryon, na Califórnia você nos falou que segurar pílulas na mão pode curar. Isso eliminará os efeitos colaterais? É seguro ficar segurando Prozac?”. A resposta foi:

“Seu corpo sabe que substância vocês estão segurando. Portanto, é possível impregnar as propriedades da intenção de usar a substância em suas células. Assim não há o efeito colateral de uma droga, por exemplo. Apenas pensem... um frasco de aspirina ou antiácidos durará anos!”.

Kardec alertou: “Jamais os bons Espíritos aconselham senão o que seja perfeitamente racional. Qualquer recomendação que se afaste da linha reta do bom-senso, ou das leis imutáveis da Natureza, denuncia um Espírito atrasado e, portanto, pouco merecedor de confiança”, em O Livro dos Médiuns.

A fragmentação de um meteoro

Outra questão intrigante proposta por um seguidor da seita é sobre o fim do mundo: “Algum planeta irá se chocar com a Terra? Irá haver extinção da raça humana?”. E Kryon respondeu:

“Depende do que os Humanos fizerem. Já revelamos que, antes de começar a canalizar, em 1989, o primeiro trabalho conjunto de Kryon e Lee Carroll foi fragmentar um meteoro (Myrva) que vinha, realmente, em rota de colisão com a Terra. Era um dos instrumentos das catástrofes previstas para o fim do século”.

O Espiritismo afirma com clareza que o mundo não será destruído fisicamente: “Não é racional se suponha que Deus destrua o mundo precisamente quando ele entre no caminho do progresso moral, pela prática dos ensinos evangélicos”, em A Gênese.

Além dos milhares de dólares arrecadados pela venda de produtos, nos encontros da seita, há outra fonte de renda: os tratamentos patenteados por Peggy Phoenix Dubro, parceira de Lee Carroll.

Segundo as idéias da seita, as pessoas que nasceram antes de 1987 não são índigo, mas para ganhar o direito de habitar a nova “galáxia” poderiam ter seu DNA alterado por meio do tratamento proposto por Peggy Dubro.Eles criaram uma empresa, A Energy Extension Incorporation (Empresa de Ampliação Energética) que detém os direitos da Universal Calibration Lattice® (Malha de Calibração Universal), e também da EMF Balancing Technique® (Técnica de Equilíbrio). São tratamentos pagos aplicados nas sedes espalhadas pelo mundo (inclusive no Brasil).

Acreditamos que as informações listadas são suficientes para dar uma idéia do que está por trás da obra Crianças Índigo. Quem ainda desejar conferir os volumosos livros e mensagens “canalizadas” por Lee Carrol e tudo mais sobre a seita Grupo Iluminação Kryon basta digitar “Kryon” nos sites de busca da internet.

A maquiagem na edição brasileira

As obras de Lee Carroll adotam o panteísmo, doutrina negada pelo Espiritismo. Mas na edição brasileira os trechos panteístas foram alterados

Lee Carroll, que com Jan Tober escreveu Crianças Índigo, publicou outros 11 livros. Dez deles são psicografados, com a autoria creditada ao “extraterrestre” Kryon.Esses volumosos livros trazem muitos conceitos conflitantes com a Doutrina Espírita.

Já no primeiro, Os Tempos Finais, publicado em 1990, Kryon descreve seu ensinamento panteísta: “Todos nós estamos vinculados. Eu assino Kryon, mas pertenço à totalidade. Você é uma parte de Deus. Todos somos coletivos em espírito, mesmo enquanto vocês estão encarnados na Terra”.

Allan Kardec explicou essa doutrina em O Céu e o Inferno: “O panteísmo propriamente dito considera o principio universal de vida e de inteligência como constituindo a Divindade. Todos os seres, todos os corpos da Natureza compõem a Divindade (...). Esse sistema não satisfaz nem a razão nem a aspiração humanas”.

Constatamos, porém, um fato intrigante: todos os livros de Lee Carroll trazerem afirmações panteístas, mas na edição brasileira não há uma só frase. Assim, consultamos a edição original em inglês, The Indigo Children, de 1999. Estava lá, no depoimento da psicóloga Doreen Virtue, a seguinte frase, que traduzimos: “Todas as crianças de Deus são iguais, porque todos são um só ser”. A mesma frase na edição brasileira, na página 153, foi alterada para: “Todas as crianças de Deus são iguais, pois somos todos iguais”.

Encontramos outra alteração na página anterior, na qual lemos a seguinte frase: “Não existem indivíduos, apenas uma ilusão de que somos diferentes”. Mas a tradução da versã original é mais extensa: “Não existem indivíduos separados, apenas a ilusão de que os outros estão separados de nós mesmos”. Esta reproduz o panteísmo do extraterrestre Kryon, mentor de Lee Carroll.

A constatação desse fato nos levou a folhear o livro para conferir o restante da tradução. No depoimento da reverenda Laurie Joy, na página 164 do livro brasileiro, lemos a seguinte frase: “Kathryn Elizabeth, fala sempre de seu anjo da guarda. Depois vai brincar com as outras crianças”. Mas a tradução da obra original é diferente: “Kathryn Elizabeth fala sempre de seu anjo da guarda.

Depois sorri, dá a mão ao anjo, e os dois vão cavar túneis na areia”.

Há uma menção em Crianças Índigo sobre os livros psicografados do “extraterreste” Kryon por Lee Carroll. Mas na tradução brasileira há uma alteração que modifica o sentido, e faz parecer que Kryon é um médium, e que nada tem a ver com Lee Carroll.

Veja: “I sent him all the Kryon books by Lee Carroll…” (Versão original, p. 147).

“Enviei todos os livros de Kryon por Lee Carroll...” (Tradução correta).

“Enviei todos os do médium Kryon e Lee Carroll...” (Trecho alterado da edição brasileira, p. 162).

Peggy Dubro é uma integrante da seita “Grupo Iluminação Kryon”, onde atua como médium. Os seres que dirigem o grupo teriam transmitido a ela o “tratamento magnético para alterar o DNA”, denominada EMF Balancing Technique. Na versão brasileira, o fato foi alterado:

“She also channeled the Phoenix Factor information, which contained the EMF Balancing Technique...”. (Versão original, p. 226)

“Ela também recebeu mediunicamente a informação Phoenix Factor, que inclui a EMF Balancing Technique...”. (Tradução correta).

“Desenvolveu, igualmente, a informação Phoenix Factor, que inclui a EMF Balancing Technique...”. (Trecho alterado da edição brasileira, p. 243)

Na descrição do comportamento do rapaz Mark, ele demonstra o comportamento esquizofrênico de não distinguir o certo do errado. Na versão brasileira do livro Mark se torna apenas irresponsável.

“... could never see the consequences of his intended actions. He literally just did not get it. After the fact, his face would always be so blank, as if he couldn’t believe he hadn’t realized that what he was doing would get him into trouble…” (Versão original, p. 145).

“... O problema é que não entendia as conseqüências de seus atos. Ele literalmente não compreendia. Depois do ocorrido, ficava com o rosto sem expressão, como se não acreditasse que tivesse feito algo que lhe trouxesse problemas...” (Tradução correta).

“... O problema é que não entendia as conseqüências de seus atos. Cometia erros, mas não percebia que teria que pagar por eles...” (Trecho alterado da edição brasileira, p. 161).

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Divaldo Franco e o seu silêncio em artigo equivocado


O verborrágico roustanguista Divaldo Pereira Franco, insistindo na mistificação de um falso espiritismo com apelos igrejeiros e supostamente pacifistas, escreveu um artigo "sensível" sobre a crise do Brasil que mostra mais uma vez os equívocos cometidos pelo "médium".

O artigo, que começa bajulando Dom Hélder Câmara, tem como tema o silêncio, e deveria ser dirigido ao próprio, que reagiu em silêncio e com gritante omissão ao escândalo da "farinata" de João Dória Jr.. O próprio Divaldo decidiu, consciente dos riscos, o lançamento do terrível alimento (feito por restos de comida de procedência e valor nutricional duvidosos, que teriam matado por intoxicação alimentar internos de uma casa no interior paulista), e tentou sair pela porta dos fundos.

Ele teve sorte porque houve outro silêncio, o da imprensa como um todo, que neste caso omitiu que o evento que lançou a "farinata" de João Dória Jr. é o Você e a Paz que, de forma explícita, credita Divaldo como seu maior responsável. De repente os jornalistas mais complacentes fizeram de conta que o evento havia sido criado pela Arquidiocese de São Paulo, que é apenas coadjuvante do encontro.

O artigo, sempre com aquele apelo piegas e igrejeiro, também tem como equívoco grave considerar que houve o julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos. Ele nunca houve, segundo historiadores conceituados. Não existem registros históricos que mostrem sequer indícios desse julgamento e quem entende da ciência política grotesca mas peculiar do Império Romano sabe que as autoridades condenavam pessoas de forma rápida e sumária, sem julgamentos.

Divaldo Franco tenta questionar o silêncio dos acomodados e a ganância dos privilegiados. Deveria olhar para si, que apoiou um político decadente, João Dória Jr. e fica cortejando autoridades ricas e poderosas. Deveria ver o quanto Divaldo manteve seu silêncio criminoso quando não cobrou das autoridades algum empenho pelo próximo, antes preferindo bajular os poderosos em troca de medalhas e condecorações.

Reproduzimos esse vergonhoso artigo, no qual Divaldo Franco não esboça a menor autocrítica, que foi publicado no jornal A Tarde, do dia 11 de janeiro último, semanas após o fiasco do Você e a Paz de Salvador, cidade na qual o povo começa a se despertar contra os deturpadores do Espiritismo e passa a abandoná-los gradualmente. Peço que leiam este texto, aparentemente cheio de "boas mensagens", mas vindo de um mistificador que fez propaganda à farsa das crianças-índigo:

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SILÊNCIO

Artigo de Divaldo Franco publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 11/01/2018

Num memorável discurso, pronunciado pelo Bispo de Recife e Olinda, Dom Hélder Câmara, em San Michel, em Paris, referiu-se com muita sabedoria e coragem que Mohandas Gandhi costumava dizer que “ele falava pelo povo sofrido do seu querido país. Ele, no entanto, fazia silêncio para que o povo pudesse falar”, expressando suas dores e a lamentável situação de miséria em que vivia.

O silêncio pode representar várias posturas comportamentais das criaturas humanas.

Em determinado momento significa muita coragem para poder suportar situações calamitosas, evitando torná-las piores; noutras situações pode expressar sabedoria para aguardar o momento adequado, quando poderá enunciar conceitos libertadores, falando por aqueles que se encontram amordaçados por impositivos perversos. 
Invariavelmente, porém, trata-se de postura covarde para não desagradar impostores, governos arbitrários, mantendo anuência com ações infelizes, pensando apenas nos interesses pessoais...

Vivemos, no mundo moderno, momentos muito graves, diante dos quais o silêncio dos justos e dos que pensam transforma-se em covardia moral, porque os seus portadores que poderiam contribuir para uma situação melhor, tendo medo de perder as migalhas vergonhosas ou usufruir do benefício das barganhas degradantes, terminam por minar as resistências dos mais fracos e submetê-los na sua ignorância a mais demorado cativeiro.

Proliferam em toda parte a decadência dos valores éticos, a prosperidade dos astutos e corruptos que desfrutam de cidadania e de popularidade como benfeitores dos humildes e humilhados, as expressões da degradação humana, os espetáculos assustadores da violência, o horror da miséria moral, econômica e social, ante a desfaçatez dos gozadores de ocasião, que os desprezam sem qualquer disfarce.

Homens e mulheres de bem que deveriam contribuir para que a situação se modificasse para melhor, não o fazem, mantêm-se silenciosos.

É comum ouvir-se dizer, repetindo o covarde Pilatos em referências a Jesus no Seu arbitrário julgamento, “que lavam as mãos”, mas não escaparam certamente da consciência ultrajada.

A coragem dos sofredores representa o poder de Deus no imo de cada ser, significando os divinos códigos do amor, da justiça, da solidariedade.

Uma sociedade que se olvida dos seus membros mais fracos, não é digna de subsistir, qual aconteceu com as grandes Nações do passado que edificaram sua glória e grandeza através da sórdida escravidão, da crueldade e dos privilégios de alguns em detrimento dos outros. Cuidado, pois, com o seu silêncio, que pode ser responsável pelo sofrimento de milhões de vidas.

Este é o nosso momento de construir o futuro.

DIVALDO P. FRANCO
Professor, médium e conferencista (sic)

domingo, 14 de janeiro de 2018

"Cartas mediúnicas" foram mais frequentes durante a ditadura militar. Estranho, né?

CENA DO FILME AS MÃES DE CHICO XAVIER, PRODUÇÃO DA GLOBO FILMES.

Um dado deve chamar a atenção das pessoas. A produção mais intensa de "cartas mediúnicas" atribuídas a pessoas comuns mortas foi durante a época de convulsões sociais durante a ditadura militar, entre os anos 1970 e início dos anos 1980.

Tal atividade se revelou não apenas irregular como perversa. As "cartas" trazidas por Francisco Cândido Xavier tinham a caligrafia pessoal dele até nas assinaturas atribuídas ao respectivo morto (facilmente comprováveis se comparadas com as caligrafias dos documentos de cada falecido), e começavam quase sempre no risível clichê "Querida mamãe", as vezes acrescido de um "querido papai, querida irmã Fulana, tia Sicrana etc".

Mas o dado mais cruel está na própria exploração das tragédias familiares. Mesmo com a aparente certeza da "vida após a morte", há o prolongamento dos lutos familiares e, o que ainda é mais grave, a sua ostentação. Matérias assim servem de "prato picante" da mídia sensacionalista, que não só se serve do grotesco da violência, como também apela para a pieguice da religião.

Essa que é tida como "a maior bondade" de Chico Xavier é uma grande perversidade. Ostentou tragédias familiares de maneira exótica, expôs muitas mães em situações patéticas, em histerias ensandecidas por nada. Enquanto senhoras pulavam, gritando "É meu filho, é meu filho!", elas mal sabem que houve fraudes nas mensagens "mediúnicas", se esquecendo até mesmo que as informações dadas nas mensagens contém dados previamente dados a elas nos "auxílios fraternos".

CONVULSÕES SOCIAIS

O que vemos de estranho é que essas mensagens foram produzidas com grande intensidade durante a época da ditadura militar, servindo de "cortina de fumaça" para muitos conflitos humanos existentes e servindo de gancho para a promoção pessoal de um ídolo religioso, no caso Chico Xavier, às custas do sensacionalismo e da ostentação da tragédia alheia.

Chico Xavier era promovido a um pretenso ativista-filantropo e um ídolo religioso para o poder dominante evitar dois riscos estratégicos: um é a ascensão de pastores evangélicos que usam a TV como meio de se projetarem, daí a blindagem que a Rede Globo passou a dar ao "espiritismo" brasileiro, sobretudo aos "médiuns", que simbolizam um modelo "oficial" de "bondade humana" que encanta muita gente mas não afeta os privilégios das classes dominantes.

Há muita coisa negativa nessas "sessões mediúnicas". Sobretudo se percebermos que Chico Xavier tinha um fetiche por mortos prematuros, tidos como "exóticos", e é por isso que muitos dos seguidores do "médium" sempre perdiam um filho por tragédia repentina, dando indícios da "maldição dos filhos mortos" relacionada ao "médium".

Embora saibamos que o mundo espiritual existe e reencarnação também, é leviano e até perverso ficar glamourizando mortes prematuras. Cria-se uma catarse emocional de tal forma que os pais acabam "desejando" as mortes de seus filhos. De repente, o que seria saudade passa a ser um prazer desumano, e um aspecto muitíssimo grave também deve ser levado em conta: as mortes prematuras são reservadas àqueles que teriam muito o que fazer numa encarnação.

Que ninguém suponha, sequer, que o que a pessoa deixou de fazer numa encarnação por causa do falecimento prematuro possa ter, na encarnação seguinte, as mesmas condições da encarnação interrompida. Se sabemos que as coisas mudam drasticamente em cinco, dez ou vinte anos, quanto mais em cerca de cem anos!

Um exemplo ilustrativo é esse: uma moça morre prematuramente e deixa o noivo desolado. Este vive sua vida longamente, contrai outro casamento etc, embora a paixão da falecida noiva fosse insuperável. Mas, digamos que, na encarnação posterior, os antigos noivos reencarnam como irmãos, ou seja, filhos do mesmo pai e/ou da mesma mãe. Mesmo que as regras sociais permitam o amor conjugal entre consanguíneos, as condições sociais se tornam extremamente diferentes.

É cruel ficar feliz porque pessoas com um futuro pela frente perdem a vida de forma prematura, antes sequer de iniciar seus planos. Se a vida terrena tem um limite, biologicamente estimado em 80 anos, o ideal é que se defenda que quem possa aproveitar bem a vida chegue a esse limite, e cumprindo um caminho a seguir, em vez de perder o caminho no começo e deixar tudo a perder.

CONSERVADORISMO SOCIAL: MATA-SE O FUTURO, PROLONGA-SE O PASSADO

O que também chama a atenção é que a glamourização das tragédias prematuras a partir do processo tendencioso de "mediunidade" por Chico Xavier é que há toda uma simbologia moralista por trás, dentro de uma sociedade brasileira que, morbidamente, parece querer que pessoas modernas e progressistas morram cedo, enquanto nutrem um medo surreal de ver assassinos ricos morrendo doentes antes dos 80, 90 anos, e talvez até com bem menos.

Mas isso tem um fundo bastante conservador, e derruba a tese de que Chico Xavier é "progressista", tese sem fundamento que foi dada de graça, sem qualquer motivo plausível e apenas com uns apelos meramente emocionais. Isso porque Chico Xavier sempre foi uma figura conservadora, reacionária e de direita - sim, é isso mesmo - , e preocupa que setores das esquerdas sociais e políticas tivessem tido uma complacência bovina em relação ao "médium" que apoiou a ditadura militar.

A ideia dos mortos prematuros é essa: mata-se o futuro. Que o futuro fique "pousando" nas esferas espirituais até que a sociedade conservadora se prepare para aceitar tais mudanças. Não vamos dizer que os idosos não possam prolongar sua vida, mas há uma ênfase em pessoas retrógradas prolongarem suas vidas, sob a desculpa de "aprender com a velhice", mas tudo o que conseguem é prolongar a vaidade, a ganância e a presunção que não se abalam com o esgotamento físico.

Essa glamourização dos mortos prematuros não existe na Doutrina Espírita original e foi inventada pelo "espiritismo" brasileiro através de valores punitivistas da Teologia do Sofrimento e algumas reminiscências moralistas trazidas por Jean-Baptiste Roustaing, que valem para os "espíritas" até hoje.

SOBRA PARA AS VÍTIMAS DA DITADURA MILITAR

O processo de "cartas mediúnicas", o espetáculo sensacionalista trazido por Chico Xavier, revela outro dado: com a glamourização das mortes prematuras se cria uma sensação de que a morte de um jovem é "boa" e que, com isso, se cria um "sentimento de alívio" que faz com que a sociedade ache bom jovens de perfil arrojado ou moderno terem morte prematura.

Isso, subliminarmente, significa um processo de anestesia social que tem um objetivo maior: tirar das pessoas a indignação pelas mortes precoces, ou, ao menos, no caso de mortes violentas, miminizar a revolta. Isso é uma forma de reeducação emocional? Não, necessariamente, porque a ideia é resignar as pessoas com as mortes prematuras, e, com isso, também dissolver as revoltas contra as vítimas da ditadura militar, muitas delas também jovens.

Com isso, a anestesia social, já reforçada com os apelos moralistas e conservadores (sim, conservadores) de Chico Xavier, que, com base na Teologia do Sofrimento, pedia para os sofredores aguentarem calados as desgraças da vida, sem esboçar um pingo de indignação (por isso Chico é conhecido pejorativamente como "AI-5 do bem") se desenvolve.

Através da glamourização dos mortos prematuros, faz-se com que a sociedade resignada, ao aceitar as mortes precoces dos jovens comuns, aceite também as mortes dos prisioneiros da ditadura militar. E, com isso, passe também a aceitar a ditadura militar ou os regimes "democráticos" mais conservadores (como o que hoje prevalece, desde 2016), anulando a revolta e aceitando sofrer desgraças e perdas, como numa sensação de masoquismo religioso.

sábado, 13 de janeiro de 2018

As sintonias mútuas de Chico Xavier e Aécio Neves

CHICO É AÉCIO, AÉCIO É CHICO.

Muitos "espíritas" podem torcer o nariz, mas dois mineiros aparentemente diferentes revelam não só afinidades de trajetórias como admiração mútua, e isso é comprovado por fatos e por ideias, e, queiram ou não queiram as pessoas, isso não é relato de invejoso nem invenção de fake news.

Francisco Cândido Xavier, para desespero de muitos, foi um arrivista no qual foram identificadas irregularidades diversas e muitas confusões em sua trajetória, que nunca teve a limpidez e a coerência que tanto se atribui.

Chico Xavier criou obras fake tidas como psicográficas, que uma leitura simples consegue ver que escapam dos estilos pessoais dos autores alegados, mas refletem o estilo pessoal do "médium". Chico também teve outros aspectos sombrios, como a defesa da ditadura militar em um programa de TV de grande audiência, com direito a comentários raivosos contra camponeses, operários e sem-teto, gente humilde que é "condenada" por organizar-se politicamente.

Mas outro aspecto sombrio que chama atenção é justamente o que oficialmente é definido como a "sua maior bondade": a divulgação de "cartas mediúnicas", atribuídas a familiares mortos, que, além de apresentarem indícios fortes de obras fake, com denúncias de "leitura fria" e copidescagem bibliográfica, exploram de maneira ostensiva as tragédias familiares, superexpondo os parentes vivos, prolongando o luto e alimentando os noticiários sensacionalistas com mais matérias.

Só esses aspectos sombrios, além da forte suspeita de revanche na usurpação do nome de Humberto de Campos por Chico Xavier - que, provavelmente, não deve ter gostado do texto irônico do cronista, quando este era vivo, a respeito de Parnaso de Além-Túmulo - , colocam Chico Xavier em situação semelhante a de Aécio Neves, político conhecido pelos fortes escândalos de corrupção.

Até no aspecto da "filantropia", Chico não escapa de Aécio, mesmo de forma indireta. Considerado um dos melhores amigos de Aécio Neves e sócio de muitos negócios, o apresentador de TV Luciano Huck, admirador confesso do "médium", também apela para a caridade paliativa do Assistencialismo e personifica os mesmos apelos "caridosos" que a Globo trabalhou na imagem do "médium" mineiro.

O próprio Huck, pré-candidato à Presidência da República, visitou a terra natal de Chico Xavier, a cidade de Pedro Leopoldo, para gravar um quadro do Lata Velha, que faz parte das atrações de Assistencialismo que se comparam à caridade paliativa do "médium", aquela caridade que traz poucos resultados sociais, mais servindo para a promoção pessoal do religioso, alvo de histérica idolatria.

Sabe-se que muito da imagem "caridosa" atribuída a Chico Xavier pelos seus admiradores foi um mito bem construído pela Rede Globo de Televisão e aceito sem críticas pelo forte apelo emocional, aos níveis piegas de várias de suas novelas. Esse mito remete de longe, vem de Malcolm Muggeridge, que fez o mesmo para inventar o mito de Madre Teresa de Calcutá e cujo discurso foi adaptado pela Globo para reinventar o mito do "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba.

Há depoimentos, tanto de parte de um quanto de outro, que indicam admiração mútua entre um e outro. No caso de Chico, mostramos uma suposta previsão, atribuída ao espírito André Luiz, que, na verdade, era fictício, que indica o desejo, desde 1952, do "médium" em ver na Presidência da República um político com as caraterísticas de Aécio Neves. A mensagem, em razão do Natal, foi dada no "centro espírita" Jesus de Nazareno, em Congonhas (MG), em 23 de dezembro de 1952:

No caso de Aécio, são dois depoimentos que foram dados em 30 de junho de 2002, em razão do falecimento do "médium", que no final da vida recebeu a visita do tucano, na qual houve uma calorosa recepção. Primeiro, mostraremos a "previsão", depois as frases do hoje senador tucano:

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MENSAGEM DE NATAL

Francisco Cândido Xavier - atribuído ao espírito André Luiz - "Centro espírita" Jesus de Nazareno, Congonhas, Minas Gerais, 23 de dezembro de 1952.

"O mundo caminha para grandes conquistas e também para grandes catástrofes. O engenho de guerra que assombrou o mundo com a destruição moral e material de Hiroshima e Nagashaki será a causa de desentendimentos no mundo inteiro. No Brasil, um líder operário terá morte violenta, pois as forças espirituais que vivem no cosmos pedem ao Supremo Criador justiça por tudo o que foi feito de bárbaro em nome do Supremo Criador e da Pátria.

Com o desaparecimento deste, o Brasil vai passar por momentos difíceis, diversos movimentos armados vão abalar profundamente a estrutura nacional. Em meio a isto virá um homem da terra do Mártir Tiradentes, e, apesar das pressões, muito irá fazer pelo Brasil, inclusive será o criador de uma Cidade Jardim, tal qual o Éden, diferente de todas as cidades, mas será substituído por outro que muita confusão irá criar e, na sua saída injustificada, vai deixar a nação abalada, e deste abalo vai começar o período crítico, até que o homem do patriotismo, vindo também da terra de Tiradentes, irá cercar-se de outros e vão derrubar a viga mestra da confusão e então muita coisa nova vai acontecer. 

Homens, mulheres e crianças vão sofrer conseqüências justas provocadas por erros anteriores. O regime será combatido e até abalado, mas, muitas nações darão crédito e respeito ao Brasil.
Com a mudança dos homens, muitos que foram o esteio da situação serão chamados a prestar contas a Deus, então o sol, as enchentes e o frio vão criar a fome e o desespero, não só no Brasil, mas também no mundo.

Mas, no fim de tudo, vai aparecer um homem franco, sincero e leal que, montado em seu cavalo branco e com sua espada, dará uma nova dimensão e personalidade aos destinos do Brasil, corrigindo injustiças e fazendo voltar a confiança e esperança no futuro do Brasil.

Será combatido e criticado por seu temperamento e atitudes, mas ele contará com a proteção das Forças Supremas que habitam o Cosmos, e o Brasil será verdadeiramente o coração do mundo e, apesar de crises e ameaças, internas e externas, que irão aparecer, ele será sempre o fiel da balança pela sua fé e esperança no destino do Brasil a ele confiado".

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DEPOIMENTOS DE AÉCIO NEVES À IMPRENSA EM RAZÃO DA MORTE DE CHICO XAVIER

30 de junho de 2002.

"Chico Xavier é uma referência única de trabalho e solidariedade não só para os mineiros, mas para todos os brasileiros. Mesmo estando em estágio avançado de sua doença, ele continuava recebendo peregrinos que viajavam para encontrá-lo. Ele será sempre um exemplo de vida e humanidade muito importante. Ele era uma figura muito confortadora para todos, independente da religião de cada um".

"Em sua grandiosa simplicidade, ele será sempre uma referência para todos que, de alguma forma, têm responsabilidade pública. Minas, o Brasil, o mundo ficou menor com a morte de Chico Xavier".

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Os brasileiros não sabem medir seus desejos e necessidades

ROUSTANGUISTAS, DIVALDO FRANCO E CHICO XAVIER SEMPRE POSARAM DE PRETENSOS DISCÍPULOS DO ESPIRITISMO ORIGINAL FRANCÊS.

O maior problema, no Brasil, é que as pessoas não sabem medir seus desejos e necessidades. Há pretensão demais e sinceridade de menos, além de uma mania de dissimulação que chega aos níveis da mitomania. Isso, constantemente, é alvo de muitos conflitos sociais, que chegam mesmo a agressões físicas ou a impulsos que fazem muitos escreverem hoje as mensagens que, depois, se apressarão desesperados para apagar.

Desde 2016, o Brasil vive uma profunda crise de valores. De 2013 para cá, abriu-se a caixa de Pandora do inconsciente brasileiro, no qual se via, por exemplo, roqueiros, antes símbolos de rebeldia e ativismo, se tornarem reacionários, e atletas olímpicos seguirem o mesmo caminho, despencando dos "olimpos" da divinização social.

As pessoas, na sociedade contemporânea, não sabem o que querem, e não raro não medem desejos nem necessidades. Isso influi muito mais nas desigualdades sociais do que o simples processo de acumulação de dinheiro, rápida e farta para uns, lenta e trabalhosa para outros.

Até mesmo na vida conjugal se observa a "solidão a dois" de esposas altivas, vibrantes, inteligentes e atraentes e seus sisudos maridos, profissionais liberais, executivos ou empresários, que não passam de casmurros caçadores de fortunas que parecem não tirar satisfação com a vida social e só vivem de acompanhar a esposa nas festas de gala ou nos passeios com os filhos. Fora isso, esposas e maridos aparecem separados, e elas mesmas acabam vivendo quase como se solteiras fossem.

Será que esses maridos precisam realmente dessas mulheres? A obsessão deles é para o sacerdócio da acumulação financeira, nos mosteiros de suas empresas ou estabelecimentos similares, nas missas dos eventos de galas, no celibato de suas ambições sócio-econômicas nas quais o casamento com uma mulher é apenas um adorno, um enfeite para buscar o prestígio social, uma relação forçada muito mal justificada pelo aparato de convívio com os filhos?

Isso é um exemplo de como os desejos e necessidades humanas andam corrompidos. Pratica-se até crimes em nome de obsessões por coisas em verdade desnecessárias. Há uma série de conflitos de ideias, interesses e pontos de vista forjados artificialmente, sem que eles sejam realmente essenciais para seus beneficiados aparentes.

"ESPÍRITAS" TAMBÉM POSSUEM DESEJOS E NECESSIDADES DESMEDIDOS

E quem acha que os "espíritas" não estão nessa, porque eles são justamente os primeiros a condenar os desejos desmedidos dos outros, está redondamente enganado. Isso porque os "espíritas", que tiveram a formação igrejeira com base na combinação entre as ideias catolicizadas de J. B. Roustaing e a tradição do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial, insistem na obsessão doentia por Allan Kardec, contra o qual cometem traições doutrinárias graves, mas juram "fidelidade total" a ele.

A obsessão por Kardec torna-se um processo doentio de busca por vaidades pessoais, alimentando um mercado comercial de livros e palestras, às custas de todo apelo sensacionalista paranormal ou de apelos moralistas análogos ao dos best sellers de autoajuda. As lições de Kardec são jogadas no lixo, mas o nome dele desfila nos lábios mentirosos cheios de mel dos "médiuns" divinizados e outros palestrantes "espíritas" com similar intenção, embora sem o "dom paranormal".

Ainda se está a discutir por que os "espíritas" brasileiros renegam tanto o nome de Jean-Baptiste Roustaing, se seguem tanto as suas ideias, descartando apenas dois pontos polêmicos como o "Cristo fluídico" e os "criptógamos carnudos" ("reencarnação" de espíritos humanos em vermes, plantas ou insetos). Fazem práticas de pregação religiosa ou de suposta mediunidade à revelia dos ensinamentos espíritas originais, não raro contrariando os mesmos. Mas juram respeito rigoroso a estes.

Isso é dissimulação, e um cinismo descarado de palestrantes e "médiuns" que se servem do malabarismo de sua oratória ou de outros aparatos emotivos ou discursivos para tentar justificar a defesa de posições que, em vários momentos, contrariam severamente. Ver que dois roustanguistas, Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, vendam a imagem de "kardecianos autênticos" é muito assustador e vergonhosamente constrangedor.

Chico Xavier e Divaldo Franco deixam claramente seus desvios, não raro de extrema gravidade, em relação aos ensinamentos espíritas originais. A "carteirada" do prestígio religioso e o apelo demagógico das supostas filantropias - feitas mais para promover seus nomes do que realizar benefícios definitivos para os necessitados - viram artifícios tendenciosos para vinculá-los, de graça e sem o menor mérito nem dignidade, ao legado do pedagogo de Lyon.

AS PIORES PRETENSÕES, SOB A MÁSCARA "MODERNA"

Há outros exemplos de desejos e necessidades desmedidos. O "funk", um mero ritmo dançante meramente comercial e feito para puro entretenimento, se vende como "poderoso movimento ativista e artístico-cultural" se usando dos mesmos apelos emotivos de Chico Xavier e Divaldo Franco, descontando as diferenças de contextos.

A pretensão de usar as pessoas pobres - definidas como "periferia", uma expressão que, para desespero das esquerdas complacentes com o "funk", vêm do jargão de Fernando Henrique Cardoso, figura eminente do neoliberalismo brasileiro - como gancho para uma abordagem glamourizada e espetacularizada das classes populares, revela também um processo de desejos e necessidades desmedidos.

O "funk" poderia se satisfizer na sua postura de ritmo dançante comercial, virar apenas um passatempo e um mero entretenimento, mas as pretensões de falso esquerdismo, de pretenso ativismo social e de suposto movimento artístico-cultural, baseado em clichês de falsa subversão comportamental, revelam o quanto se deseja mais do que precisa para obter vantagens acima das normais.

Ele segue o contexto de outros ritmos "populares demais" que, sob a desculpa de lutar pelos próprios espaços, ocupam os espaços alheios da MPB e da cultura alternativa, sufocando as expressões da música brasileira de qualidade e não-comercial.

No âmbito ideológico, o "funk" segue o caminho da confusão de supostas transgressões de comportamento. Tenta ser "feminista" trabalhando valores machistas de sexualização do corpo feminino, usando como desculpa esfarrapada a "liberdade do corpo", uma ilusão que faz as mulheres rebaixadas a objetos sexuais dos homens terem a falsa impressão de que, "mostrando demais", só estão exibindo para si mesmas. A Internet, todavia, não é como o espelho de casa.

Há homossexuais homofóbicos, mulheres que sentem a "síndrome de Estocolmo" (quando a vítima se sente atraída pela força ou pelo coitadismo do algoz) pelos machistas violentos, negros racistas contra si mesmos, e pobres de direita que lutam contra seus próprios direitos. Mas há também esquerdistas com visões de direita, rebeldes obscurantistas, pessoas de visual bem arrojado com ideias tão retrógradas.

Há também empregadores que não sabem o que querem e esperam que o novo profissional seja um cruzamento de Malvino Salvador, Danilo Gentili e Neymar, vendo como requisitos mais o talento de contar piadas e falar de futebol do que da própria competência profissional específica. E há concursos públicos que, até para funções de nível escolar médio ou superior não-científicas, se exige demais conhecimentos de Direito e Matemática.

São vários conflitos de interesses, que às vezes se tornam contraditórios quando envolvem mais de uma causa. É o esquerdista esclarecido que denuncia a grande mídia, mas adora a Seleção Brasileira de Futebol, protegida da Rede Globo. Ou que defende um Chico Xavier que foi reacionário em seu tempo. É a pessoa que diz apoiar o fim das desigualdades, mas defende medidas econômicas que só as fazem agravar.

É isso que faz o Brasil estar em conflitos permanentes, porque as pessoas pensam no arrivismo e no alpinismo sociais, sendo modernas na embalagem e retrógradas no conteúdo, presas nos seus vícios de quererem ser o que não são, obtiverem o que não precisam, e sair por aí desmentindo posições conservadoras que defendem no íntimo de suas almas. Se nada for feito para frear essas ambições, o Brasil mergulhará em retrocessos sociais ainda piores.
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